quarta-feira, 25 de maio de 2011

Os fantasmas revelados de Santiago Nazarian



“Entre as pernas abertas do gordo semiconsciente, Jefferson se ajoelha e abre a braguilha... engole amargo o que restou do sêmen na garganta... talvez já tivesse visto aquele gordo mesmo. Talvez aquele rosto fosse familiar...”. 

Essa é uma parte do conto homônimo do livro Pornofantasma (Editora Record, 320 pgs. R$ 44,90), primeiro livro de contos do escritor Santiago Nazarian. O autor estreou na literatura em 2003 com Olívio (Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura), lançou outros quatro romances e agora publica o primeiro livro de contos, que exibe uma sexualidade reprimida entre sangue, terror e apocalipse. Sempre provocante Nazarian, 33 anos, já inova na capa: uma cobra aparentemente morta com a boca aberta (elaborado por ele e Alexandre Matos). Nada é o que parece ser à primeira vista. A cobra apenas se finge de morta para enganar os predadores. Boa parte dos textos já foram publicados em antologias.


Alguns autores recentes caem na armadilha da “crítica” que desdenham as novas gerações de ficcionistas, afirmando que eles só escrevem as mesmas coisas, não renovam seu fôlego e nunca trazem coisas novas para os leitores. De fato muitos escritores sofrem o “mal da geração”; não passam sinceridade nos textos e não conseguem dar o “pulo do gato”, atingir o outro lado do muro, apenas por acreditarem no conceito que tal geração (no qual estão inseridos) escreve sobre tal assunto. Santiago Nazarian conseguiu passar incólume por essas armadilhas e sempre escreveu sobre o que pensava escrever. "Pornofantasma" é um Nazarian em pedaços, que não tem medo de exibir seus fantasmas.


Catorze histórias compõem o livro. Contos que carregam um clima de suspense e terror em cada linha percorrida. Em "Catorze anos de fome", moradores de um prédio falam(e mentem) sobre um homem que nunca mais saiu de um dos apartamentos; "Todas as cabeças no chão,menos a minha", é uma bela fábula inspirada nos "Irmãos Grimm", conta a história de um príncipe que vai à procura da mulher amada, com uma espada na mão e algumas palavras mágicas, mata todos que entram em seu caminho.

O terror aparece em maior profundidade no conto "Marshmallow Queimado": alguns amigos contam histórias de terror misturado com sexo, o local escolhido para isto? Um cemitério.



O conto que dá título à obra é o melhor texto deste livro: Jefferson, um pai que perde o filho vítima de overdose, encontra anos depois na internet vídeos pornôs com um ator que é a cara do filho, começa então uma busca desenfreada para tentar “resgatar” o rapaz que ele julga em apuros; Jefferson vai parar em uma cidade fantasma onde acha que os vídeos podem ter sido feitos e desconfia que boa parte dos habitantes possam ser atores pornôs. A procura pelo rapaz cria momentos de puro suspense. Não sabemos (ou não precisamos saber), se o ator que Jefferson procura realmente existe, se o filho realmente morreu, ou se tudo não passa de esquizofrenia. “Jefferson então repara melhor no balconista caipira. O caipira ainda sorri. Parece familiar aquele sorriso. Parece com quem? Com uma vida passada, até parece com seu filho. Com seu filho? Jefferson tenta encaixar aquele sorriso em outra vida, outros gemidos”. Esse conto define a proposta do livro.


Os textos mostram um autor amadurecido, que não esconde suas influências e obsessões. Talvez a maior obsessão do escritor seja pela forma, que mostra-se em grande evolução.

Santiago Nazarian é um autor para ser lido com calma, tomando um bom vinho, para entender suas referências e a busca por uma escrita onde o que se diz não possa ser visto à olho nu, mas nas entrelinhas, onde se desenrola a verdadeira ficção.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Na solidão da metrópole


Quem passa pela Rua Sete de Setembro, no Recife, não imagina que ali mora um escritor que desde pequeno só via a literatura como a coisa mais importante em sua vida. Entre gritos de ambulantes e sirenes de viaturas da polícia, Gilvan Lemos olha pela Janela do décimo segundo andar do edifício onde mora. No escritório repleto de livros, ele tira um cigarro do bolso, põe a boca e, por alguns segundos, seu olhar vagueia pela estante a sua frente, mas o escritor não está olhando para estante. Seu olhar está relembrando o passado.

Um autor que já foi o queridinho das editoras, agora sofre com o esquecimento delas. “Dizem que foi por causa da timidez”, desabafa um homem de mais de oitenta anos que não consegue mais fazer o que sempre fez, escrever. A memória, que antes era a grande arma, agora está sem pólvora. Toda a munição já foi gasta nos 25 publicados.

O escritor nasceu em São Bento do Una, interior de Pernambuco, que serviu de cenário para boa parte da obra dele. Lemos nunca gostou de escrever à mão. Quando chegou ao Recife, começou a trabalhar em uma fábrica e com o primeiro salário comprou uma máquina de datilografar. Desde então não escreveu mais à mão. O autor começou fazendo quadrinhos. Foi nessa mesma época que a irmã começou a comprar livros para ele. O primeiro que leu foi  O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, que o despertou para o romancista que escreveria mais de vinte livros.

Nunca havia pensado ser escritor. São Bento do Una, muito atrasado, não tinha colégio. Chegou até o terceiro ano primário e não pôde mais seguir em frente. Autodidata, começou a trabalhar numa fábrica de laticínios e com o dinheiro que ganhava comprava livros em São Paulo e no Rio de Janeiro, via reembolso postal. Formou quase toda a biblioteca dessa maneira. “Não sei como uma pessoa passa pela vida sem ler, sem se interessar pela literatura”, comenta Lemos, que sempre viu na ficção a sua fonte do prazer.

A escrita passou a ser o objetivo principal da sua vida. Amigo de Osman Lins, conta que o amigo sempre o influenciou em diversos momentos da vida. Um exemplo é quando pediu a Gilvan Lemos para inscrever um romance no prêmio Fábio Prado, do Rio de Janeiro. Não deu outra: Gilvan Lemos sairia vitorioso.

Os livros mais recentes do autor têm uma alta dose de realidade, como por exemplo Na Rua Padre Silva, uma espécie de Graciliano Ramos no Centro do Recife ou em qualquer outra metrópole do Brasil. “Escrevo sobre o que vejo e conheço. As desgraças que acontecem na cidade, no país. Quando escrevo tento causar as mesmas coisas que queria causar quando era menino, pensando em ser escritor: distração, vivência, alegrias, tristezas”, revela.


Lemos publicou um novo livro este ano: Sete Ranchos (Editora Nossa Livraria – R$ 30,00) o primeiro livro escrito por ele e que até então estava inédito. Não fosse a insistência do proprietário da Nossa Livraria, João Luiz, o livro nunca sairia. “Disse para ele que tinha um livro inédito, que foi o primeiro que escrevi, aí ele disse que queria publicar, eu aceitei”.  

Gilvan Lemos não vê a nova literatura brasileira com bons olhos. “Não consigo entender o que os jovens escritores estão fazendo. Eles escrevem para ninguém entender nada. Até o Dalton Trevisan, que era o melhor contista do Brasil, está inventando esse negócio de contos curtos. Disse que a meta dele era escrever um conto com apenas uma palavra. Não tenho mais interesse”, decepciona-se.

A conversa está terminando e resta apenas uma última pergunta. “O que é a literatura para você?”. Com os olhos perdidos e cheios de lágrimas, responde como uma metáfora de um dos livros que criou: “Saudade”.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Marcelino Freire matando por amor

Consagrado com o prêmio Jabuti em 2005, Marcelino Freire lançará em julho um novo livro por uma editora independente.

       
O escritor pernambucano Marcelino Freire, é um dos autores mais inquietos da literatura brasileira. Sempre está organizando ou participando de festas literárias, escrevendo sobre literatura em seu blog Ossos do Ofídio e causando polêmicas nas declarações. Este ano decidiu sair da zona de conforto da Editora Record (Freire publicou dois livros: Contos Negreiros em 2005 e Rasif em 2008) e lançará o novo livro de contos, Amar é crime, por uma editora independente. A seguir confira a entrevista com Marcelino e um trecho exclusivo do livro.



Entrevista – Marcelino Freire


Tem gente que quer silenciar essa nova geração


O autor organiza a Balada Literária
em São Paulo. Foto: Renato Parada
Você está prestes a lançar um novo livro, Amar é crime, e optou por não ser pela Editora Record, qual o motivo da mudança?

Cansaço. Estava querendo mudar, sacudir, sei lá, me "inventurar" outra vez. Desde novembro passado que participo de um coletivo artístico, o EDITH (visiteedith.com). Faz tempo que queria criar um grupo instigante, pulsante. Tem gente muito boa por lá. Estamos publicando livros, fazendo filmes, pensando em realizar exposições, teatro, etc. Acabamos de instituir um concurso literário só para escritoras. Veja lá no site. Então... Aí quis levar o meu novo livro de contos para o coletivo. Uma forma de estar junto, de brigarmos unidos, de trocarmos forças. Não tenho o que reclamar da Editora Record, que fez dois belos livros meus. Foram excelentes parceiros. Mas, agora, eu estou precisando desse gás, precisando me provocar. Se a gente não tomar cuidado, vira um croquete, um vinho branco - essa coisa meio status quo, cocorocó, me cansa. Quis zerar tudo, entende?

Por que Amar é crime? Fale um pouco desse novo livro.

Reuni os contos que venho escrevendo durante esses três anos (meu último livro de contos foi o "RASIF" em 2008) e vi que ali, nos contos, tinha gente sofrendo de amor, matando por amor, ganhando dinheiro com o amor. Sangue e paixão, beijo e cuspida, sei lá. Tudo junto nos contos (alguns deles, bem longos para o meu padrão). Fiquei procurando o título do livro. Foi quando ouvi uma quadrinha, cantada pela Jussara Silveira. Na musiquinha, ela diz: "você diz que amar é crime / se amar é crime eu não sei não". Aí bati o martelo, é este o título da reunião dessas histórias cegas, viscerais, à doida. Tem gente que está transformando o amor em negócio - algumas ONGs por exemplo. Eu não denuncio isto, mas está lá, na pele dos meus personagens, o quanto estamos sofrendo por causa disto. Enfim...

Os seus livros carregam o peso da violência: mortes, estupros, fome, etc. Sempre sentiu urgência de tratar da violência por um viés artístico?
Eu sempre digo: eu não escrevo sobre violência. Eu escrevo SOB violência. A violência está aí, no nosso dia a dia. Sou afetado por ela. Quando vejo, meus contos estão contando isto, tentando entender o absurdo em que vivemos. Eu sou vítima. Como vítima, grito, esperneio, solto o verbo.

O prêmio Jabuti que você ganhou (pelo livro "Contos Negreiros", publicado pela Record em 2005), foi uma conquista e ao mesmo tempo um peso nas suas costas?
Não, o Jabuti nunca foi peso. Não parei de escrever por causa dele. Não escrevo pensando em Jabuti, em prêmios. Na época em que ganhei o Jabuti, não fiz concessão. Meu livro estava lá, com meu ritmo, personagens, ladainhas. Vieram e me deram o prêmio. Não pedi. Agora, falo sempre: tem escritor que recebe um prêmio deste e começa a peidar diferente. Não foi o meu caso, nunca será. Aliás, não inscreverei o meu novo livro em Jabuti nenhum. Não quero Jabuti. Eu quero o leitor, o comparsa, o cúmplice perfeito, por exemplo, para este novo "crime" que estou cometendo.

Quais escritores que você nunca esquece?
Manuel Bandeira, Drummond, Cabral, Graciliano, Adília Lopes, Machado, Jean Genet, Raimundo Carrero, João Gilberto Noll, Santiago Nazarian, Ivana Arruda Leite, André Sant'Anna, Vergílio Ferreira, Nelson de Oliveira, Artur Rogério, Miró, Jommard Muniz de Britto, Roberto Piva, Glauco Mattoso, Laerte, Wilson Bueno, Manoel de Barros. Eta porra! Vou esquecer um montão de gente boa. Paciência.

Lygia Fagundes Telles recentemente concedeu uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo e afirmou que não lê os novos escritores. O que acha dessa posição?
Sou amigo da Lygia, leitor dela faz tempo. Fiz uma justa homenagem para ela na última edição da Balada Literária. Lygia deu e dá a sua vida para a literatura. Continua atuante, escrevendo. Acabou de fazer 88 anos. Cara, o que podemos cobrar da Lygia que ela não já tenha dado para a literatura? Ela não precisa estar interada com a geração atual. Ela precisa ser feliz. Viver a sua vida como ela quiser. É uma grande escritora e basta. Não vejo a sua afirmação como negação, mas como direito, prioridade. Está certíssima.

Qual o maior pecado dessa nova geração de escritores?
Escrever. Tem gente que quer silenciar essa nova geração. Calar, esconder. Deixem os novos escritores, porra, chegarem com seus parágrafos e suas armas. Para alguns, o nosso "crime" (olha o crime aí de novo) é escrever. Continuarei pecando. Escrevendo. E, sobretudo, fazendo amor animal, é claro.

A internet é uma aliada para a literatura brasileira? Ela ajudará a criar o hábito pela leitura?
Adoro a internet, site, blog, pulsação. Agora mesmo, estou aqui, diante de um computador, numa lan house (estou na rua, sem meu netbook), digitando as respostas para você. Ao meu lado, tem um jovem bonito jogando um jogo esquisito (maior de idade, é claro). Já troquei o telefone com ele. Está vendo como a internet é importante? E melhora a leitura do mundo. Já falei para ele que sou escritor e ele me falou que ia ler os meus livros. Olha aí...

Você criou a Balada Literária em São Paulo e sempre está presente em diversas festas literárias pelo Brasil. Qual a importância desses eventos para a literatura?

Quanto mais a literatura estiver espalhada pelos quatro mil cantos, melhor para literatura, para os leitores. Eu idealizo e organizo, a duras batalhas, anualmente, desde 2006, a Balada Literária, que reúne artistas nacionais e internacionais pelo bairro paulistano da Vila Madalena. É uma festa. O escritor precisa estar ao lado do pastel e do provolone. Agora mesmo, já comecei a correria para a edição deste ano, cujo homenageado é o poeta Augusto de Campos. Eta danado! Vai ser de arrepiar. Apareça.

A FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty), não interessa mais para você? Por quê?
A FLIP me interessa, sim, e muito. Quem não me interessa é o Fernando Henrique Cardoso. Não fui à última FLIP por causa dele e por causa de um excesso de mesas sobre sociologia. Este ano, fui convidado pelo Itaú Cultural para levar à FLIP o meu projeto AUTORES EM CENA, em que um diretor de teatro é convidado para dirigir um autor em vez de um ator. No palco, teremos o Lourenço Mutarelli e o João Gilberto Noll, cada um em uma peça de 40 minutos. O Itaú é meu parceiro faz tempo (inclusive, é parceiro da Balada). O Itaú Cultural quer que eu vá de qualquer jeito. É um projeto meu. Devo ir, sim. Mas não estou tão animado com as mesas da FLIP. Devo ver uma coisa ou outra. Espero que a FLIP não faça como a Fliporto, aí de Pernambuco, que, um tempo atrás, levou o JOSÉ SARNEY. É disso que eu fujo. Festa assim com FHC, Sarney, não me pertence, entende?

Literatura, violência ou orgasmo?
Para combater a violência, mais literatura e mais orgasmo. Por falar nisso, já estou atrasado para a suruba lá no quartel. Fui e abraços.




Trecho inédito do livro Amar é Crime


– MÃE, ó, o meu plano é assim, uma viagem, vai vendo, eu sequestro a minha namorada, porque ela me traiu, quis me deixar, rá, aí eu trago ela aqui para casa, pela garagem, dou um tapa, jogo no sofá, esculhambo, vai vendo, bato, xingo ela de vaca, aí ela vai negar, tudinho, vai negar, rá, rá, vai dizer que me ama, aí eu, puto, é claro, não vou acreditar, quando ela der uma de santa e, de fininho, tentar ligar para chamar o pai, é quando eu pego na arma, saca, mãe, saca, ela vai fazer aquela cara, rá, ó, de susto, de choro, e aí eu esfrego bem no rosto dela o cano do revólver velho, também mostrarei uma faca que rasparei no cabelo da condenada, é, enquanto ela não me contar, sério, rá, rá, o que andou aprontando, ela, toda mulher é, sim, uma cadela, menos a senhora, mãe, que é de outro tempo, vai vendo, a viagem, ela, de repente, vai soltar um grito de socorro pelo buraco daquela janela, a safada, a selvagem, aí eu ataco ela, rá, rá, pela perna, dou um chute forte na barriga da bandida e ela desmaia, a desgraçada pensa que eu sou bobo, a fingida toda se fingindo, no mínimo, ora, e lá vai soco, mesmo com ela desacordada, jogo um litro de água suja na cara dela, ali, da privada, ela abre o olho, tosse, vomita mole alguma coisa, é quando eu ouço alguém bater na porta, pá, pá, é a senhora chegando, é, é, vai vendo, aí eu não dou bola, fecho a fechadura, forte, puxo o armário, faço uma barreira e peço que a senhora vá embora, rezar, rá, rá, que hoje a merda vai rolar [...]

( Trecho do conto "Crime", extraído do livro "Amar É Crime",

de MARCELINO FREIRE, a ser lançado em julho pela EDITH )


O livro será lançado no dia 13 de Julho

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Na solidão da metrópole

Gilvan Lemos já escreveu mais de duas dezenas de livros.

Por      Ney Anderson
Fotos - Ney Anderson




          Quem passa pela Rua Sete de Setembro, no Recife, não imagina que ali mora um escritor que desde pequeno só via a literatura como a coisa mais importante em sua vida. Entre gritos de ambulantes e sirenes de viaturas da polícia, Gilvan Lemos olha pela Janela do décimo segundo andar do edifício onde mora. No escritório repleto de livros, ele tira um cigarro do bolso, põe a boca e, por alguns segundos, seu olhar vagueia pela estante a sua frente, mas o escritor não está olhando para estante. Seu olhar está relembrando o passado.
          Um autor que já foi o queridinho das editoras, agora sofre com o esquecimento delas. “Dizem que foi por causa da timidez”, desabafa o homem de mais de oitenta anos que não consegue mais fazer o que sempre fez, escrever. A memória, que antes era a grande arma, agora está sem pólvora. Toda a munição já foi gasta nos 25 publicados.
          O escritor nasceu em São Bento do Una, interior de Pernambuco, que serviu de cenário para boa parte da obra dele. Lemos nunca gostou de escrever à mão. Quando chegou ao Recife, começou a trabalhar em uma fábrica e com o primeiro salário comprou uma máquina de datilografar.  O autor começou fazendo quadrinhos. Foi nessa mesma época que a irmã começou a comprar livros para ele. O primeiro que leu foi O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas
, que o despertou para o romancista que escreveria vários livros.
          Nunca havia pensado ser escritor. São Bento do Una, muito atrasado, não tinha colégio. Chegou até o terceiro ano primário e não pôde mais seguir em frente. Autodidata, começou a trabalhar numa fábrica de laticínios e com o dinheiro que ganhava comprava livros em São Paulo e no Rio de Janeiro, via reembolso postal. Formou quase toda a biblioteca dessa maneira. “Não sei como uma pessoa passa pela vida sem ler, sem se interessar pela literatura”, comenta Lemos, que sempre viu na ficção a sua fonte do prazer.
          A escrita passou a ser o objetivo principal da sua vida. Amigo de Osman Lins, conta que o amigo sempre o influenciou em diversos momentos da vida. Um exemplo é quando pediu a Gilvan Lemos para inscrever um romance no prêmio Orlando Dantas, do Diário de Notícias do Rio de Janeiro. Não deu outra: Gilvan Lemos sairia vitorioso.
          Os livros mais recentes do autor têm uma alta dose de realidade, como por exemplo Na Rua Padre Silva, uma espécie de Graciliano Ramos no Centro do Recife ou em qualquer outra metrópole do Brasil. “Escrevo sobre o que vejo e conheço. As desgraças que acontecem na cidade, no país. Quando escrevo tento causar as mesmas coisas que queria causar quando era menino, pensando em ser escritor: distração, vivência, alegrias, tristezas”, revela.
          Lemos publicou um novo livro este ano: Sete Ranchos (Editora Nossa Livraria – R$ 30,00) o primeiro livro escrito por ele e que até agora permaneceu inédito. Não fosse a insistência do proprietário da Nossa Livraria, João Luiz, o livro nunca sairia. “Disse para ele(João Luiz) que tinha um livro inédito, que foi o primeiro que escrevi, aí ele disse que queria publicar, eu aceitei”.
          Gilvan Lemos não vê a nova literatura brasileira com bons olhos. “Não consigo entender o que os jovens escritores estão fazendo. Eles escrevem para ninguém entender nada. Até o Dalton Trevisan, que era o melhor contista do Brasil, está inventando esse negócio de contos curtos. Disse que a meta dele era escrever um conto com apenas uma palavra. Não tenho mais interesse”, decepciona-se.
          A conversa está terminando e resta apenas uma última pergunta. “O que é a literatura para você?”. Com os olhos perdidos e cheios de lágrimas, responde como uma metáfora de um dos livros que criou: “Saudade”.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Ele não quer seu sangue




 O escritor paulista André Vianco, 36 anos, impressiona pelos números; desde o primeiro livro, publicado no ano 2000, já vendeu mais de 700 mil exemplares. No entanto seu nome não é tão badalado na mídia e nunca está na lista dos prêmios literários do país, talvez por escrever sobre vampiros, lobisomens e espíritos malignos, gêneros de difícil aceitação para a crítica brasileira, porém Vianco conseguiu uma legião de fãs e suas sessões de autógrafos são um verdadeiro alvoroço.  



O autor está lançando o primeiro romance policial, O caso Laura (Editora Rocco, 272 pgs. R$ 32,50), que acabou de ser lançado pela Editora Rocco, nova casa editorial, com uma tiragem de 30 mil exemplares.


"O caso Laura" é um livro com atmosfera sombria e psicológica, que mostra uma reclusa mulher restauradora de imagens sacras que mantém encontros com um homem misterioso num banco de praça; um idoso desconhecido contrata o detetive Marcel para seguir os passos dos dois. Os diálogos são rápidos carregados   com alguns clichês dos livros policiais, mas isso não o torna chato ou enfadonho. A força imagética trabalhada no romance é algo que Vianco já aprendeu a utilizar e serviria muito bem nos cinemas multiplex: cenas de ação de tirar o fôlego, mistérios que vão sendo jogados e respondidos em pequenas doses e a famosa artimanha de sempre terminar uma página com alguma surpresa que será desvendada na outra. Para um autor que ficou conhecido por escrever livros sobre vampiros, fica difícil fazer uma obra sem algo sobrenatural. O termo policial dark, como Vianco define o romance, vem justamente das doses de sobrenatural. Há outra história paralela à principal, um policial que teve a mulher assassinada dentro de uma boate é investigado por alguns crimes, no final as histórias se entrelaçam para chegar a um desfecho óbvio.

A literatura de André Vianco não é e nem pretende ser alta literatura, trata-se de entretimento puro, uma boa para ler no ônibus ou em alguma aula chata de faculdade. Os vampiros e lobisomens de André Vianco não querem seu sangue, eles pretendem apenas te divertir.