quinta-feira, 13 de outubro de 2011
MANUTENÇÃO
Em dezembro o Angústia Criadora retornará com novas resenhas e entrevistas, além de contos inéditos. Aguardem.
domingo, 4 de setembro de 2011
Em Insônia só o edifício é concreto
Insônia é um livro de contos curtos, tudo se passe dentro um prédio
Por Ney Anderson
Fotos do autor e da capa: Yusanã Mignoni/Douglas Téo
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| André Timm recebeu menção honrosa no prêmio Sesc 2009 |
Nos dias atuais a literatura sofre uma concorrência absurda com tudo o que acontece ao redor. Novos games surgem; redes sociais com recursos ilimitados; filmes de ação e mais outros tantos atrativos para uma sociedade que busca, cada vez mais, o prazer pelo imediato. Num país com índices baixíssimos de leitura, tudo isso soaria praticamente como a morte da literatura, que já vem sendo anunciada por vários “estudiosos” do meio literário. No entanto, os escritores estão atentos a essa nova “tendência” do mercado, e estão buscando diminuir a brecha entre o entretenimento e a arte. Narrativas curtas ganham cada vez mais fôlego, e devem mostrar tudo em tão pouco tempo. O escritor americano Edgar Allan Poe já havia falado isso em sua Filosofia da Composição, que um leitor nunca é o mesmo leitor quando está lendo um texto ficcional por partes, que a experiência de ler um conto, por exemplo, deveria ser de uma “sentada só” (como acontece no cinema), uma entrega completa.
É bem provável que o escritor André Timm tenha lido esse ensinamento de Poe, aja vista a rapidez na qual, seu livro de estréia Insônia, caminha. O livro é curto, oitenta e duas páginas, mas não fica devendo nenhuma explicação ao leitor. Aliás, explicação que o próprio leitor deve se fazer quando termina a leitura de um texto em forma de thriller, como acontece aqui.
Insônia se passa em um prédio de vinte andares, onde dramas familiares acontecem, pessoas desaparecem repentinamente e coisas estranhas surgem. Poderia parecer um clichê, mas não é. O livro foi muito bem construído, nove contos, com os números dos apartamentos como títulos, já nos passam a idéia que iremos subir e descer, de elevador ou de escada, para alguns apartamentos, e conhecer seus moradores.
Os contos são bem diferentes, no entanto tem certa familiaridade, proposta já no título do livro, onde pessoas com insônia fazem coisas diferentes, por causa de um mesmo mau. Em um dos contos um personagem acorda num andar que não é o seu; um rapaz busca saber o que está escrito num papel colado na janela de outro apartamento; Clarice, uma moradora que está de mudança para o prédio, fica presa, sem conseguir sair, tanto ela quanto os funcionários da empresa que estão fazendo a mudança. Nesses dois últimos contos André Timm utilizou uma outra técnica, talvez inédita, de fazer a união de literatura e internet, pois, nesses contos os personagens recebem uma mensagem no computador para abrir um site (que existe mesmo), revelando um outro mundo, estranho da mesma forma, e que dá ainda mais rapidez ao livro.
O livro, como o autor mesmo diz, flerta o tempo inteiro com a proposta de links verdadeiros, saindo da narrativa e indo de encontro para um mundo à parte. Mas, o experimentalismo de Timm, serve muito bem e não faz de maneira alguma com que o leitor fique disperso. É até interessante como os sites ajudam em Insônia, eles não revelam nada dos contos, estão ali para causar um maior estranhamento, como se o ser humano com Insônia não fica apenas acordado, sem conseguir dormir, mas vagando, entre um mundo real e outro de sonhos e ilusões.
“No fundo, tudo isso acaba remetendo à própria estrutura de um edifício”, comenta o autor. De fato, parece que os personagem estão andando, literalmente, dentro de um espaço físico delimitado, com tudo construido em camadas e se interconectando com várias dimensões.
André Timm tenta causar estranhamento, mas não apenas isso. O tipo de narrativa que criou não resolve tudo, não precisa de respostas imediatas (algo que está muito na moda atualmente), com textos sem explicação, lacunas etc. É um problema que só o leitor terá que resolver. Na abertura do livro tem uma citação de Marcelino Freire: “Livro não é pra ser entendido, é pra ser sentido”. Não poderia existir citação melhor para abrir esse livro. Talvez o leitor tenha que perder várias noites de sono para tentar entender os contos de Timm, ou então ficar eternamente com insônia, buscando respostas que nunca serão encontradas completamente. Um livro que, de fato, não deixa o leitor dormir.
É bem provável que o escritor André Timm tenha lido esse ensinamento de Poe, aja vista a rapidez na qual, seu livro de estréia Insônia, caminha. O livro é curto, oitenta e duas páginas, mas não fica devendo nenhuma explicação ao leitor. Aliás, explicação que o próprio leitor deve se fazer quando termina a leitura de um texto em forma de thriller, como acontece aqui.
Insônia se passa em um prédio de vinte andares, onde dramas familiares acontecem, pessoas desaparecem repentinamente e coisas estranhas surgem. Poderia parecer um clichê, mas não é. O livro foi muito bem construído, nove contos, com os números dos apartamentos como títulos, já nos passam a idéia que iremos subir e descer, de elevador ou de escada, para alguns apartamentos, e conhecer seus moradores.
Os contos são bem diferentes, no entanto tem certa familiaridade, proposta já no título do livro, onde pessoas com insônia fazem coisas diferentes, por causa de um mesmo mau. Em um dos contos um personagem acorda num andar que não é o seu; um rapaz busca saber o que está escrito num papel colado na janela de outro apartamento; Clarice, uma moradora que está de mudança para o prédio, fica presa, sem conseguir sair, tanto ela quanto os funcionários da empresa que estão fazendo a mudança. Nesses dois últimos contos André Timm utilizou uma outra técnica, talvez inédita, de fazer a união de literatura e internet, pois, nesses contos os personagens recebem uma mensagem no computador para abrir um site (que existe mesmo), revelando um outro mundo, estranho da mesma forma, e que dá ainda mais rapidez ao livro.
O livro, como o autor mesmo diz, flerta o tempo inteiro com a proposta de links verdadeiros, saindo da narrativa e indo de encontro para um mundo à parte. Mas, o experimentalismo de Timm, serve muito bem e não faz de maneira alguma com que o leitor fique disperso. É até interessante como os sites ajudam em Insônia, eles não revelam nada dos contos, estão ali para causar um maior estranhamento, como se o ser humano com Insônia não fica apenas acordado, sem conseguir dormir, mas vagando, entre um mundo real e outro de sonhos e ilusões.
“No fundo, tudo isso acaba remetendo à própria estrutura de um edifício”, comenta o autor. De fato, parece que os personagem estão andando, literalmente, dentro de um espaço físico delimitado, com tudo construido em camadas e se interconectando com várias dimensões.
André Timm tenta causar estranhamento, mas não apenas isso. O tipo de narrativa que criou não resolve tudo, não precisa de respostas imediatas (algo que está muito na moda atualmente), com textos sem explicação, lacunas etc. É um problema que só o leitor terá que resolver. Na abertura do livro tem uma citação de Marcelino Freire: “Livro não é pra ser entendido, é pra ser sentido”. Não poderia existir citação melhor para abrir esse livro. Talvez o leitor tenha que perder várias noites de sono para tentar entender os contos de Timm, ou então ficar eternamente com insônia, buscando respostas que nunca serão encontradas completamente. Um livro que, de fato, não deixa o leitor dormir.
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| Editora Design, R$ 22,00 , 82 Páginas |
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
O amor não será mais o mesmo
Editora Companhia das Letras lança sexto volume onde o amor é o tema central
Por Ney Anderson
Por Ney Anderson
Fotos do autor e capa: Renato Parada/Flickr-Getty Imagens. Havana,Cuba
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| O autor viajou para Cuba |
Quando a Editora Companhia das Letras resolveu criar o projeto Amores Expressos, causou certa polêmica com a imprensa, editores e escritores. Pois, o projeto seria financiado pela Lei Rouanet. A editora iria fazer uma renúncia fiscal de R$ 1,2 milhão para bancar o projeto. Depois de toda confusão que foi formada, a Companhia das Letras decidiu custear essa idéia inédita no Brasil e no mundo.
Foram enviados 17 escritores para diversas partes do mundo, com a proposta de que passassem um mês nesses lugares e escrevessem histórias de amor. Cidades como Cairo, Buenos Aires, São Paulo, Havana etc. Serviram de cenário para histórias de amor muito longe do clichê que o tema sugere.
Cinco livros já foram lançados e agora mais um surge nessa galeria de amores e desencontros: Nunca vai embora de Chico Mattoso.
Mattoso foi enviado para Havana, Cuba, e lá começou sua peregrinação para tentar compreender a cidade e criar sua história de amor. O enredo do livro é simples, trata de um dentista, Renato Polidoro, que abandona sua profissão para acompanhar a namorada Camila, que se formou há pouco tempo em cinema e pretende produzir um documentário em Cuba.
Essa viagem produz em Renato uma euforia por estar fazendo algo sem precisar da ajuda do pai, que nunca deu valor suficiente para ele, e sempre fez tudo à sua maneira, sem pedir uma opinião sequer ao filho. Trabalhava no consultório do pai para quitar a dívida pelos anos de estudo na universidade particular e não tinha muitas ambições. Renato é um típico trabalhador, que não vê muito futuro em sua vida e profissão, e de uma hora para outra conhece uma jovem cheia de sonhos e fantasias.
Cheio de expectativas, ele faz um roteiro de lugares que precisa conhecer em Cuba, mas chegando lá não consegue “viver” sem Camila. Não aceita os horários da namorada e começa a ficar paranóico, achando que uma traição estar para acontecer ou que, igual ao pai, ela não lhe dá o devido valor. Camila, por sua vez, é uma cineasta obcecada pelo trabalho, nas poucas horas que está perto de Renato, só fala de filmes, cineastas, diretores de cinema etc. Renato não consegue conhecer Havana da maneira que havia planejado, por não conseguir “andar” sem Camila.
A sensação que Mattoso nos transmite é de uma atmosfera claustrofóbica, onde o protagonista se vê preso em um país desconhecido e com pessoas que não lhe despertam o menor interesse. Nessa confusão de sentimentos, Renato Polidoro, começa a vagar pela ilha e conhecer lugares que não estavam em seu roteiro, mas no outro dia nem sequer lembra de coisas específicas desses lugares, ele apenas se deixa levar, sem se importar muito com nada.
Em uma das discussões com Camila ela o abandona, o que lhe causa medo nos primeiros dias. Sem ela Renato sente-se um homem fraco, sem vontade de viver e não entende o motivo de ter se tornado um obcecado pela namorada.
É nessa virada na vida do protagonista que o leitor começa a conhecer Havana junto com Renato. Ele descobre lugares novos, conhece algumas pessoas, tem um flerte com a filha da dona do hotel e tenta de qualquer maneira saber onde está Camila. Em uma de suas andanças, entra num bar e conhece Pepe e Fili (donos do local), começam uma amizade, e é quando Pepe fica sabendo da história de Renato que resolve ajudá-lo, aparecendo com a teoria de que Camila não o abandonou por vontade própria. Isso só faz aumentar a loucura de Renato por ela. Nesse momento a narrativa ganha contorno de thriller policial, pistas surgem de teorias matemáticas, pessoas suspeitas aparecem no caminho de Renato, Pepe muda de humor a cada novo dia de encontro e Camila não aparece, e nem aparecerá. Um romance narrado em primeira pessoa, que mostra a angústia da procura por uma obsessão.
Chico Mattoso criou um livro onde o tema passa distante dos modismos e clichês, mostrando que falar de amor em literatura não quer dizer necessariamente que se deva falar de coisas bobas e infantis. É possível mostrar que o amor também atormenta e causa loucuras, e que talvez não possa existir sem sofrimento.
O maior mérito de Nunca vai embora é a maneira angustiante de como é tratado esse sentimento, que é um dos temas mais utilizados na história da literatura mundial.
Foram enviados 17 escritores para diversas partes do mundo, com a proposta de que passassem um mês nesses lugares e escrevessem histórias de amor. Cidades como Cairo, Buenos Aires, São Paulo, Havana etc. Serviram de cenário para histórias de amor muito longe do clichê que o tema sugere.
Cinco livros já foram lançados e agora mais um surge nessa galeria de amores e desencontros: Nunca vai embora de Chico Mattoso.
Mattoso foi enviado para Havana, Cuba, e lá começou sua peregrinação para tentar compreender a cidade e criar sua história de amor. O enredo do livro é simples, trata de um dentista, Renato Polidoro, que abandona sua profissão para acompanhar a namorada Camila, que se formou há pouco tempo em cinema e pretende produzir um documentário em Cuba.
Essa viagem produz em Renato uma euforia por estar fazendo algo sem precisar da ajuda do pai, que nunca deu valor suficiente para ele, e sempre fez tudo à sua maneira, sem pedir uma opinião sequer ao filho. Trabalhava no consultório do pai para quitar a dívida pelos anos de estudo na universidade particular e não tinha muitas ambições. Renato é um típico trabalhador, que não vê muito futuro em sua vida e profissão, e de uma hora para outra conhece uma jovem cheia de sonhos e fantasias.
Cheio de expectativas, ele faz um roteiro de lugares que precisa conhecer em Cuba, mas chegando lá não consegue “viver” sem Camila. Não aceita os horários da namorada e começa a ficar paranóico, achando que uma traição estar para acontecer ou que, igual ao pai, ela não lhe dá o devido valor. Camila, por sua vez, é uma cineasta obcecada pelo trabalho, nas poucas horas que está perto de Renato, só fala de filmes, cineastas, diretores de cinema etc. Renato não consegue conhecer Havana da maneira que havia planejado, por não conseguir “andar” sem Camila.
A sensação que Mattoso nos transmite é de uma atmosfera claustrofóbica, onde o protagonista se vê preso em um país desconhecido e com pessoas que não lhe despertam o menor interesse. Nessa confusão de sentimentos, Renato Polidoro, começa a vagar pela ilha e conhecer lugares que não estavam em seu roteiro, mas no outro dia nem sequer lembra de coisas específicas desses lugares, ele apenas se deixa levar, sem se importar muito com nada.
Em uma das discussões com Camila ela o abandona, o que lhe causa medo nos primeiros dias. Sem ela Renato sente-se um homem fraco, sem vontade de viver e não entende o motivo de ter se tornado um obcecado pela namorada.
É nessa virada na vida do protagonista que o leitor começa a conhecer Havana junto com Renato. Ele descobre lugares novos, conhece algumas pessoas, tem um flerte com a filha da dona do hotel e tenta de qualquer maneira saber onde está Camila. Em uma de suas andanças, entra num bar e conhece Pepe e Fili (donos do local), começam uma amizade, e é quando Pepe fica sabendo da história de Renato que resolve ajudá-lo, aparecendo com a teoria de que Camila não o abandonou por vontade própria. Isso só faz aumentar a loucura de Renato por ela. Nesse momento a narrativa ganha contorno de thriller policial, pistas surgem de teorias matemáticas, pessoas suspeitas aparecem no caminho de Renato, Pepe muda de humor a cada novo dia de encontro e Camila não aparece, e nem aparecerá. Um romance narrado em primeira pessoa, que mostra a angústia da procura por uma obsessão.
Chico Mattoso criou um livro onde o tema passa distante dos modismos e clichês, mostrando que falar de amor em literatura não quer dizer necessariamente que se deva falar de coisas bobas e infantis. É possível mostrar que o amor também atormenta e causa loucuras, e que talvez não possa existir sem sofrimento.
O maior mérito de Nunca vai embora é a maneira angustiante de como é tratado esse sentimento, que é um dos temas mais utilizados na história da literatura mundial.
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| Editora Cia das Letras, 128 Páginas, R$ 34,00 |
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AMORES EXPRESSOS,
CIA DAS LETRAS,
ROMANCE
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
O terror nosso de cada dia
Um gênero que não para de crescer, tanto em venda de livros quanto em novos autores
Por Ney Anderson
Fotos do autor e capa: Divulgação
Como foi sua estréia na literatura de terror? Sofreu algum preconceito?
Não que eu tenha percebido. Minha estréia foi tranquila e em pouco tempo, recebi o primeiro e-mail, curiosamente de uma garota de Manaus! Fiquei até surpreso, pois nunca imaginei que, em tão pouco espaço de tempo, meu livro pudesse ir para uma região tão longe de São Paulo. É aí que a distribuição representa um papel importante e, com o tempo, descobri que tenho muitos leitores nas regiões Norte e Nordeste. O “pessoal lá de cima” lê muito, o que achei magnífico. No mais, acho que tive sorte, pois nunca tive problemas em dizer que escrevo Terror ou Literatura Fantástica ou de entretenimento. Alguns se mostravam surpresos, mas se houve algum tipo de preconceito, foi de modo bem velado.
Quando está começando a produzir um novo trabalho, qual a preocupação inicial, o que pensa em fazer primeiro? Normalmente, minhas idéias aparecem através de uma cena ou tema, que me vem à cabeça. Se a idéia se fixa e resolvo desenvolvê-la, trabalho de modo geral com a trama, na maioria das vezes, não a tenho por inteira – ela se desenvolve a medida em que escrevo. Um dos primeiros passos é desenvolver os personagens centrais, apenas poucas linhas, nada muito complexo, nomes e características, se necessário à trama. E alguma pesquisa, caso queira descrever algo específico, que pode variar de uma cidade a uma doença, por exemplo. No geral, entretanto, gosto de criar a maior parte do material de minha imaginação. Por exemplo, quase toda a ação de Relâmpagos de Sangue se passa em uma cidade imaginária, Germinade, no interior de Minas Gerais. Gosto de criar tais coisas
Por Ney Anderson
Fotos do autor e capa: Divulgação
A literatura de terror e fantasia está cada vez mais ganhando espaço na mídia. Muitos jovens estão entrando no mundo da leitura por meio desse gênero. Livros com um forte apelo comercial e sem espaço para uma linguagem mais trabalhada e culta. A série do bruxinho Harry Potter da escritora britânica J.K. Rowling já vendeu mais 5OO milhões de cópias e os filmes já bateram a marca de 6 bilhões de dólares em bilheterias. No mesmo caminho vem a saga Crepúsculo da autora americana Stephenie Meyer, que também conseguiu levar a história do vampiro Edward Cullen e da jovem Bella Swan para os cinemas, causando outro frisson, e milhões de dólares para os produtores e editores da saga. Mas, o gênero terror e fantasia, é muito anterior aos apelos midiáticos que estamos presenciando. O escritor Edgar Allan Poe foi o precursor da literatura de ficção científica e fantástica no século 19, lançou uma série de livros que estão imortalizados até hoje, entre eles Os Crimes da Rua Morgue, A Carta Roubada, e o mais conhecido de todos, o poema O corvo. Depois de Poe uma série de escritores surgiram e ajudaram a popularizar esse tipo de literatura no mundo inteiro, entre os mais conhecidos se destacam: H. P. Lovecraft, Bram Stoker, Robert Louis Stevenson, Anne Rice e Stephen King.
Para conversar, sobre esse e outros assuntos, o Angústia Criadora traz uma entrevista com um autor brasileiro de livros de terror que vive em São Paulo: Nelson Magrini.
Para conversar, sobre esse e outros assuntos, o Angústia Criadora traz uma entrevista com um autor brasileiro de livros de terror que vive em São Paulo: Nelson Magrini.
Entrevista: Nelson Magrini
“Um autor deve ter seu público alvo”
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| Magrini é uma das apostas da literatura sobrenatural |
Esse interesse dos leitores por literatura de fantasia e terror são passageiros?
Se eu me tomar como exemplo, certamente que não! Sempre fui um leitor voraz do gênero – comecei com ficção-científica – e não me vejo mudando. Não que não goste de outros estilos, mas a Literatura Fantástica ainda é meu preferido. Têm pessoas que chamam o gênero de escapismo; eu o chamo de entretenimento. Qualquer romance, mesmo que não contenha elementos sobrenaturais ou fantásticos, é ficção. Não seria, então, escapismo do mesmo modo? Tudo é ficção ou a possui em grande elemento. Qualquer biografia, por exemplo, por melhor que seja o trabalho de pesquisa, envolve opiniões, versões, achismos, “fatos” tido como verdade, mas que não o são, etc. Quanto de ficção há em uma biografia? Ou o fato de não sabermos a “verdade real” sobre acontecimentos, as intenções pessoais e os pensamentos tornam aquele relato menos ficcional?
No fundo, há meio que um consenso entre aquilo que é considerado literatura “real” e ficcional, mas no fundo, a linha divisória não é tão nítida assim.
Literatura Fantástica, com todos os seu subgêneros, proporciona diversão e, portanto, salvo raras exceções, não vejo as pessoas a abandonando com o passar do tempo ou com o envelhecimento. Acredito, sim, em uma procura por qualidade, ou seja, com o passar do tempo, o leitor tem a tendência a se tornar mais crítico em relação ao que procura.
A série Harry Potter é um fenômeno difícil de ser explicado, mas como você vê toda essa febre em torno do bruxo da britânica J. K. Rowling?
Se eu me tomar como exemplo, certamente que não! Sempre fui um leitor voraz do gênero – comecei com ficção-científica – e não me vejo mudando. Não que não goste de outros estilos, mas a Literatura Fantástica ainda é meu preferido. Têm pessoas que chamam o gênero de escapismo; eu o chamo de entretenimento. Qualquer romance, mesmo que não contenha elementos sobrenaturais ou fantásticos, é ficção. Não seria, então, escapismo do mesmo modo? Tudo é ficção ou a possui em grande elemento. Qualquer biografia, por exemplo, por melhor que seja o trabalho de pesquisa, envolve opiniões, versões, achismos, “fatos” tido como verdade, mas que não o são, etc. Quanto de ficção há em uma biografia? Ou o fato de não sabermos a “verdade real” sobre acontecimentos, as intenções pessoais e os pensamentos tornam aquele relato menos ficcional?
No fundo, há meio que um consenso entre aquilo que é considerado literatura “real” e ficcional, mas no fundo, a linha divisória não é tão nítida assim.
Literatura Fantástica, com todos os seu subgêneros, proporciona diversão e, portanto, salvo raras exceções, não vejo as pessoas a abandonando com o passar do tempo ou com o envelhecimento. Acredito, sim, em uma procura por qualidade, ou seja, com o passar do tempo, o leitor tem a tendência a se tornar mais crítico em relação ao que procura.
A série Harry Potter é um fenômeno difícil de ser explicado, mas como você vê toda essa febre em torno do bruxo da britânica J. K. Rowling?
Imagino que serei simplista em minha resposta, pois como você bem disse, é um fenômeno difícil de ser explicado, mas em maior ou menor grau, não foi um fenômeno inédito. Primeiramente, Rowling produziu uma obra de qualidade, e isso é o fator número um. Segundo, personagens carismáticos. Ela sabia exatamente para que público estava escrevendo e o que esse público buscava, o que não quer dizer que buscava um bruxo e tal. Mas que buscava uma aventura que os fizesse voar, que os fizesse vivenciar cada passo dos personagens centrais. E seu grande lance foi, não só ter conseguido tal feito; foi fazer tais personagens crescerem e amadurecerem com seu público. Essa sacada foi genial, embora não saiba dizer se isso foi original. Terceiro, tem muito a ver com o momento em que a obra foi criada, os leitores-alvo cresceram expostos à internet, comunicando-se em tempo real, inteirando-se do que acontecia em torno de assuntos comuns, e vai por aí. Dizer que ela estava no lugar certo, no tempo certo é redundante? Por der, mas não deixa de ser verdade.
Como você vê o preconceito de literatura de terror e fantasia no Brasil?
É uma triste realidade. A literatura de terror e fantasia sofre duplamente. Primeiro, por preconceito de editores e mesmo autores de outros segmentos, que a vêem como algo fácil e escapista. E em segundo lugar, o preconceito pelos autores nacionais desse tipo de literatura, e aí envolve tanto as editoras, como os leitores, apesar de que já está mais do que provado, nos últimos dez anos, que fazemos esse gênero com alta qualidade, onde autores já se destacaram, com várias obras publicadas, e mesmo alguns iniciantes, com um texto de qualidade já no primeiro livro.Com este destaque, alguma coisa começou a mudar, mas ainda falta muito para acabarmos que tal preconceito bobo e sem nenhuma razão de ser.
Como você vê o preconceito de literatura de terror e fantasia no Brasil?
É uma triste realidade. A literatura de terror e fantasia sofre duplamente. Primeiro, por preconceito de editores e mesmo autores de outros segmentos, que a vêem como algo fácil e escapista. E em segundo lugar, o preconceito pelos autores nacionais desse tipo de literatura, e aí envolve tanto as editoras, como os leitores, apesar de que já está mais do que provado, nos últimos dez anos, que fazemos esse gênero com alta qualidade, onde autores já se destacaram, com várias obras publicadas, e mesmo alguns iniciantes, com um texto de qualidade já no primeiro livro.Com este destaque, alguma coisa começou a mudar, mas ainda falta muito para acabarmos que tal preconceito bobo e sem nenhuma razão de ser.
Qual foi o livro que te despertou para o romancista que viria ser?
Não houve um livro em si, mas sim, centenas deles. Minhas primeiras influências foram escritores de ficção-científica, como Asimov e Clarke, entre muitos outros. Dos mais modernos, sem dúvida Stephen King e Dean Kootz.
Não houve um livro em si, mas sim, centenas deles. Minhas primeiras influências foram escritores de ficção-científica, como Asimov e Clarke, entre muitos outros. Dos mais modernos, sem dúvida Stephen King e Dean Kootz.
Como foi sua estréia na literatura de terror? Sofreu algum preconceito?
Não que eu tenha percebido. Minha estréia foi tranquila e em pouco tempo, recebi o primeiro e-mail, curiosamente de uma garota de Manaus! Fiquei até surpreso, pois nunca imaginei que, em tão pouco espaço de tempo, meu livro pudesse ir para uma região tão longe de São Paulo. É aí que a distribuição representa um papel importante e, com o tempo, descobri que tenho muitos leitores nas regiões Norte e Nordeste. O “pessoal lá de cima” lê muito, o que achei magnífico. No mais, acho que tive sorte, pois nunca tive problemas em dizer que escrevo Terror ou Literatura Fantástica ou de entretenimento. Alguns se mostravam surpresos, mas se houve algum tipo de preconceito, foi de modo bem velado.
Quando está começando a produzir um novo trabalho, qual a preocupação inicial, o que pensa em fazer primeiro? Normalmente, minhas idéias aparecem através de uma cena ou tema, que me vem à cabeça. Se a idéia se fixa e resolvo desenvolvê-la, trabalho de modo geral com a trama, na maioria das vezes, não a tenho por inteira – ela se desenvolve a medida em que escrevo. Um dos primeiros passos é desenvolver os personagens centrais, apenas poucas linhas, nada muito complexo, nomes e características, se necessário à trama. E alguma pesquisa, caso queira descrever algo específico, que pode variar de uma cidade a uma doença, por exemplo. No geral, entretanto, gosto de criar a maior parte do material de minha imaginação. Por exemplo, quase toda a ação de Relâmpagos de Sangue se passa em uma cidade imaginária, Germinade, no interior de Minas Gerais. Gosto de criar tais coisas
Você escreve diariamente? Qual sua rotina?
Minha rotina é não ter rotina. No geral, escrevo em qualquer hora vaga, ou não. Escrever diariamente só acontece quando estou em pleno desenvolvimento de um livro, ou o prazo da editora está apertado. Normalmente, escrevo, depois pode leva alguns dias para maturar uma idéia ou sequência, aí escrevo de novo, e assim vai seguindo.
Minha rotina é não ter rotina. No geral, escrevo em qualquer hora vaga, ou não. Escrever diariamente só acontece quando estou em pleno desenvolvimento de um livro, ou o prazo da editora está apertado. Normalmente, escrevo, depois pode leva alguns dias para maturar uma idéia ou sequência, aí escrevo de novo, e assim vai seguindo.
Já criou alguma história apartir de uma matéria de jornal?
Não cheguei a criar uma história, mas já usei fatos reais noticiados. Por exemplo, na sequência de ANJO A Face do Mal, cujo original já está na editora, cito o trabalho de dois cientistas que demonstraram que o Homem de Neandertal foi uma espécie à parte dos humanos. Eu citei o fato e as referências, romanceei em cima, e aproveitei para uma das idéias da trama. No mais, creio que isso pode acontecer a qualquer hora. Tudo é fonte de inspiração. Minha ficção surge de uma idéia / cena que aparece em minha mente. Às vezes, o que surge primeiro é o título, como ocorreu com Relâmpagos de Sangue. No geral, nunca tenho uma visão total da trama, e somente consigo desenvolvê-la aos escrever. De certo modo, preciso produzir para saber como a história se desenrolará. Curiosamente, alguns leitores já me disseram que a maneira como minha criatividade se manifesta é assustadora, pois parece que as histórias têm vontade própria. Pensando bem, a idéia daria uma ótima trama de terror!
Não cheguei a criar uma história, mas já usei fatos reais noticiados. Por exemplo, na sequência de ANJO A Face do Mal, cujo original já está na editora, cito o trabalho de dois cientistas que demonstraram que o Homem de Neandertal foi uma espécie à parte dos humanos. Eu citei o fato e as referências, romanceei em cima, e aproveitei para uma das idéias da trama. No mais, creio que isso pode acontecer a qualquer hora. Tudo é fonte de inspiração. Minha ficção surge de uma idéia / cena que aparece em minha mente. Às vezes, o que surge primeiro é o título, como ocorreu com Relâmpagos de Sangue. No geral, nunca tenho uma visão total da trama, e somente consigo desenvolvê-la aos escrever. De certo modo, preciso produzir para saber como a história se desenrolará. Curiosamente, alguns leitores já me disseram que a maneira como minha criatividade se manifesta é assustadora, pois parece que as histórias têm vontade própria. Pensando bem, a idéia daria uma ótima trama de terror!
Quais são seus maiores medos na hora que está produzindo?
Curioso, está aí algo que nunca pensei. Aliás, nem sei se um autor deve considerar tais receios, ou tê-los, na hora de produzir. Creio que qualquer autor deva ter em mente, na hora de criar, seu público alvo – isso é praticamente uma imposição do mercado e das editoras – e o que eles esperam de um bom livro. Mas se o autor começar a duvidar da obra em si, seja na trama, na qualidade do texto, ou qualquer outro entrave, melhor parar e começar outra. O principal fã de um autor deve ser ele próprio. Se ele duvidar de sua obra, quem irá acreditar nela?
Curioso, está aí algo que nunca pensei. Aliás, nem sei se um autor deve considerar tais receios, ou tê-los, na hora de produzir. Creio que qualquer autor deva ter em mente, na hora de criar, seu público alvo – isso é praticamente uma imposição do mercado e das editoras – e o que eles esperam de um bom livro. Mas se o autor começar a duvidar da obra em si, seja na trama, na qualidade do texto, ou qualquer outro entrave, melhor parar e começar outra. O principal fã de um autor deve ser ele próprio. Se ele duvidar de sua obra, quem irá acreditar nela?
Qual o maior erro que um escritor pode cometer?
Literalmente falando, não procurar melhorar sempre a qualidade de seu trabalho, bem como a escrita. Ter medo ou vergonha de usar um dicionário ou gramática. Pior, ter orgulho em não usá-los!
O que é preciso para que uma literatura de terror e fantasia possa dar certo?
Antes de qualquer coisa, ter qualidade de trama e de escrita. Pecar em algum desses quesitos é fracasso garantido. Além disso, o livro tem de empolgar e prender o leitor. Pode-se colocar filosofia por detrás da trama, mas que caiba no contexto e nada exagerado. Extensas e exaustivas passagens podem até agradar a alguns, mas certamente não à maioria.
Outro ponto, por mais fantasioso que seja a história, ela tem de ter verossimilhança. Não importa quão louca seja uma passagem ou fato; na cabeça do leitor tem de parecer factível, possível.
Em relação ao terror, além disso tudo, um bom livro dá medo, muito medo! Aqueles que querem escrever terror têm de fazer os leitores olharem para os lados ou para os cantos, desconfiados, de vez em quando. Fazê-los dar aquela parada na leitura, quando a sós, ou quando escutam um barulho que não conseguem identificar.
Escrever terror é meter medo, de tal maneira plausível, que faça o leitor se assustar com as páginas do livro. Um livro de terror que assusta, não dá errado.
Literalmente falando, não procurar melhorar sempre a qualidade de seu trabalho, bem como a escrita. Ter medo ou vergonha de usar um dicionário ou gramática. Pior, ter orgulho em não usá-los!
O que é preciso para que uma literatura de terror e fantasia possa dar certo?
Antes de qualquer coisa, ter qualidade de trama e de escrita. Pecar em algum desses quesitos é fracasso garantido. Além disso, o livro tem de empolgar e prender o leitor. Pode-se colocar filosofia por detrás da trama, mas que caiba no contexto e nada exagerado. Extensas e exaustivas passagens podem até agradar a alguns, mas certamente não à maioria.
Outro ponto, por mais fantasioso que seja a história, ela tem de ter verossimilhança. Não importa quão louca seja uma passagem ou fato; na cabeça do leitor tem de parecer factível, possível.
Em relação ao terror, além disso tudo, um bom livro dá medo, muito medo! Aqueles que querem escrever terror têm de fazer os leitores olharem para os lados ou para os cantos, desconfiados, de vez em quando. Fazê-los dar aquela parada na leitura, quando a sós, ou quando escutam um barulho que não conseguem identificar.
Escrever terror é meter medo, de tal maneira plausível, que faça o leitor se assustar com as páginas do livro. Um livro de terror que assusta, não dá errado.
Na sua visão quais são os livros essenciais na literatura de terror e fantasia?
São muitos e nem de longe eu conseguiria citá-los. No terror em específico, gênero no qual me enquadro, nem vou relacionar os clássicos, Stoker, Poe, Lovecraft, etc – só aqui, já deixei de comentar um monte. Dos atuais, repito, Stephen King e Dean Koontz. Recomendo de King, Christine, O Apanhador de Sonhos, Os Estranhos (Tommyknockers), Trocas Macabras, entre outros. De Koontz, A Caso do Mal e Meia Noite.
São muitos e nem de longe eu conseguiria citá-los. No terror em específico, gênero no qual me enquadro, nem vou relacionar os clássicos, Stoker, Poe, Lovecraft, etc – só aqui, já deixei de comentar um monte. Dos atuais, repito, Stephen King e Dean Koontz. Recomendo de King, Christine, O Apanhador de Sonhos, Os Estranhos (Tommyknockers), Trocas Macabras, entre outros. De Koontz, A Caso do Mal e Meia Noite.
Dá para sobreviver de literatura de terror no Brasil?Certamente que sim, mas são raros os que conseguiram, ou melhor, talvez seja mais correto dizer aquele que conseguiu, pois somente conheço o André Vianco que está nesse patamar. Mas a dificuldade vem exatamente daquilo que foi discutido ma primeira questão. Se houvesse mais reconhecimento, tanto por parte das editoras, como dos livreiros e leitores, os autores nacionais de qualidade facilmente conseguiriam viver da Literatura, que seguramente é o sonho da maioria.
André Vianco é um fenômeno da literatura de terror no Brasil,por quê?
Bom, esta é uma questão complexa e certamente não existe um só por quê. Em realidade, vejo como uma série de fatores. Nem vou entrar no tema qualidade. Obviamente, suas obras têm qualidade e o André é um grande autor, assim como não entrarei no mérito do tema vampiros, que nunca deixou de estar em relativo destaque. Contudo, quando ele começou, era igual a qualquer outro que está iniciando hoje. A seu favor, ele contava com tenacidade, pois já havia bancado três obras independentes e as levava em livraria, oferecia aos amigos, etc. Com isso, ele conseguiu, mesmo que diminuto em termos empresariais, um público que o conhecia. Em seguida, há algo que ele nunca escondeu, e que ele próprio já me falou mais de uma vez: há o fator sorte, aquela sorte que caminha junto de qualquer campeão, seja este um escritor ou um piloto de Fórmula 1. Nas palavras do André, ele estava no lugar certo, na hora certa, quando o editor daquela que viria a se tornar a Novo Século, procurava alguma coisa nova para publicar. E achou a edição independente de Os Sete e resolveu falar com o Vianco. Resultado? Os Sete foi o primeiro livro publicado pela Novo Século. Bom, você pode me perguntar como isso ajudou o André a se tornar um vencedor, afinal, tal pode e acontece com outros. Creio que aqui o que ajudou bastante foi a necessidade da editora de se firmar, ou seja, vários títulos do André foram publicados em curto intervalo de tempo. Outro ponto é que, mesmo para um autor desconhecido na época, não sei exatamente o que a editora fez, ele recebeu algum destaque nas livrarias. Por exemplo, quando comprei Os Sete, ele estava em uma mesa, no canto da frete e com uma pilha de uns 15 exemplares! Nunca mais vi algo assim com qualquer autor nacional estreante. O segundo que a editora lançou, alguns meses depois, foi O Senhor da Chuva que, embora não estivesse na vitrine, estava na primeira mesa, também uma pilha de uns 10 ou 15, e voltado para o vitrine, ou seja, era visível do lado de fora da loja! Está aí algo que também nunca vi em relação a autores iniciantes. Seja como for, o que quero salientar é que, fosse por força da necessidade da editora, fosse pelo que fosse, quando se dá destaque para bons autores nacionais, eles vendem e criam um público fiel. Talento é fundamental, mas pouco consegue se você não chega aos leitores, se a esmagadora maioria sequer sabe que você existe ou tem um ou mais livros publicados. Agora, quando se investe em talento, quando há o destaque, a coisa muda de figura. O sucesso do André, mais que nunca, demonstra tal fato.
André Vianco é um fenômeno da literatura de terror no Brasil,por quê?
Bom, esta é uma questão complexa e certamente não existe um só por quê. Em realidade, vejo como uma série de fatores. Nem vou entrar no tema qualidade. Obviamente, suas obras têm qualidade e o André é um grande autor, assim como não entrarei no mérito do tema vampiros, que nunca deixou de estar em relativo destaque. Contudo, quando ele começou, era igual a qualquer outro que está iniciando hoje. A seu favor, ele contava com tenacidade, pois já havia bancado três obras independentes e as levava em livraria, oferecia aos amigos, etc. Com isso, ele conseguiu, mesmo que diminuto em termos empresariais, um público que o conhecia. Em seguida, há algo que ele nunca escondeu, e que ele próprio já me falou mais de uma vez: há o fator sorte, aquela sorte que caminha junto de qualquer campeão, seja este um escritor ou um piloto de Fórmula 1. Nas palavras do André, ele estava no lugar certo, na hora certa, quando o editor daquela que viria a se tornar a Novo Século, procurava alguma coisa nova para publicar. E achou a edição independente de Os Sete e resolveu falar com o Vianco. Resultado? Os Sete foi o primeiro livro publicado pela Novo Século. Bom, você pode me perguntar como isso ajudou o André a se tornar um vencedor, afinal, tal pode e acontece com outros. Creio que aqui o que ajudou bastante foi a necessidade da editora de se firmar, ou seja, vários títulos do André foram publicados em curto intervalo de tempo. Outro ponto é que, mesmo para um autor desconhecido na época, não sei exatamente o que a editora fez, ele recebeu algum destaque nas livrarias. Por exemplo, quando comprei Os Sete, ele estava em uma mesa, no canto da frete e com uma pilha de uns 15 exemplares! Nunca mais vi algo assim com qualquer autor nacional estreante. O segundo que a editora lançou, alguns meses depois, foi O Senhor da Chuva que, embora não estivesse na vitrine, estava na primeira mesa, também uma pilha de uns 10 ou 15, e voltado para o vitrine, ou seja, era visível do lado de fora da loja! Está aí algo que também nunca vi em relação a autores iniciantes. Seja como for, o que quero salientar é que, fosse por força da necessidade da editora, fosse pelo que fosse, quando se dá destaque para bons autores nacionais, eles vendem e criam um público fiel. Talento é fundamental, mas pouco consegue se você não chega aos leitores, se a esmagadora maioria sequer sabe que você existe ou tem um ou mais livros publicados. Agora, quando se investe em talento, quando há o destaque, a coisa muda de figura. O sucesso do André, mais que nunca, demonstra tal fato.
Você acredita que uma criança que seja apresentada desde cedo aos mundo dos livros,obrigatoriamente se tornará um adulto leitor?
Não sei se cabe o termo “obrigatoriamente”, mas creio que muitos, talvez a grande maioria, terá tal tendência.
A literatura de fantasia e terror pode ser uma porta de entrada para os jovens leitores conhecerem a literatura clássica, ou isso não acontece?
Concordo que pode ser, mas “pode” não implica em “será”. Como respondi há pouco, creio que a grande maioria que lê fantasia e terror se manterá em tal gênero, mas muitos, com certeza, mesmo sem abandoná-lo, se sentirão despertados para conhecer outros estilos. Na realidade, se a fantasia e o terror criarem o hábito da leitura, todas as demais portas estarão abertas, ao menos, em potencial. Explorá-las ou não, será de cada um.
Não sei se cabe o termo “obrigatoriamente”, mas creio que muitos, talvez a grande maioria, terá tal tendência.
A literatura de fantasia e terror pode ser uma porta de entrada para os jovens leitores conhecerem a literatura clássica, ou isso não acontece?
Concordo que pode ser, mas “pode” não implica em “será”. Como respondi há pouco, creio que a grande maioria que lê fantasia e terror se manterá em tal gênero, mas muitos, com certeza, mesmo sem abandoná-lo, se sentirão despertados para conhecer outros estilos. Na realidade, se a fantasia e o terror criarem o hábito da leitura, todas as demais portas estarão abertas, ao menos, em potencial. Explorá-las ou não, será de cada um.
Muita gente está escrevendo na internet, isso ajuda a literatura ou o que estão fazendo não é literatura?
Penso que ajuda, sim. A internet propiciou um meio rápido de pessoas levarem suas criações ao conhecimento de outras, em um número bastante extenso. Nesse sentido, se tornou fácil escrever e divulgar, o que ajuda não só em relação ao hábito da leitura, mas também, a despertar o hábito da escrita.
Contudo, aproveitando a questão, não vou entrar no mérito se o que fazem é ou não literatura. Pelo que já li a respeito, nem os especialistas na área se entendem ou concordam.
Porém, penso que muito mais importante do que tal debate, é vermos se tais textos têm qualidade, ou se apontam para uma evolução.
Infelizmente, salvo poucas exceções, o jovem que escreve tem um Português, se muito, sofrível! Também faço trabalhos de revisão, leitura crítica, etc, e a maioria dos originais que recebo apresenta uma escrita de péssima qualidade.
A questão é: quantos desses autores de internet usam suas próprias criações para evoluírem como escritores? Posso dizer que conheço autores consagrados na internet, com grande carisma, que chegaram a publicar por editoras, e que... não evoluem nada, em questão da Língua Portuguesa!
Acredito que essa falta de qualidade de escrita, esse desconhecimento da gramática básica, contribui muito para que tais textos não sejam considerados sequer uma “literatura popular”. Esta é uma questão delicada e que merecia um debate sério entre educadores, pois reflete diretamente a péssima qualidade do ensino básico.
Como um país pode ter grandes escritores, em número crescente, se o desconhecimento básico da língua é geral? E aqui, não me refiro a um Português erudito, mas sim, elegante, variável, rico. Será que entre um milhão de “mas”, ninguém lembra de usar um “todavia” ou um “contudo”? Toda a ação tem de ser narrada através do verbo “estar” mais um gerúndio – estava andando, estava correndo, estava olhando?
Veja ao ponto em que chagamos: estou falando de uma família de conjunção e de... conjugar verbos!
Um médico pode desconhecer medicina? Um engenheiro pode desconhecer seus cálculos. Como alguém pode querer ser escritor sem conhecer o básico da língua?
Escrever na internet aumentou suas vendas em livros impressos, ou o público é diferente?
Na realidade, não só escrever, mas principalmente divulgar minhas obras, as tornaram mais conhecidas e, sem dúvida, ajudou nas vendas. Escrever textos inéditos ou republicar material é uma parte integrante, de qualquer autor, na divulgação de seu trabalho. Muitos leitores acabam por tomar conhecimento primeiramente através desse material e depois, chegam a conhecer os livros em si.
O inverso também é válido, ou seja, aqueles que acompanham e aguardam com ansiedade um novo trabalho impresso, adoram ler novidades publicadas na internet.
De modo geral, é uma simbiose muito grande, e a maioria dos leitores acompanha os dois meios, digital e impresso.
Você está publicando uma série de fantasia em seu blog, fale um pouco sobre ela.
Na realidade, estou republicando minha minissérie, em dez partes, O Portador da Luz. Esse trabalho, de mistério e suspense, tem como tema fundamental, um dos grandes males da humanidade, o fanatismo e suas desmedidas consequências. A série foi publicada originalmente no Fontes da Ficção, ao longo de dez meses, e fez muito sucesso à época. Convido todos a lerem, pois traz um final inesperado, que poucos esperavam.
Assim que terminar a postagem de O Portador da Luz, trarei outro conto que poucos leitores conhecem, assim como alguns inéditos.
Você é da corrente que acha que o livro de papel vai acabar? Para dizer a verdade, não posso dizer que sou de alguma corrente, ou que torça por uma ou outra. Quem quer evoluir tem de se adaptar à tecnologia ou meios que surgem. A internet é um ótimo exemplo, assim como o mp3 e por aí, vai.
Penso que a tendência do papel é diminuir, se os livros digitais se popularizarem, que está diretamente ligado ao barateamento do custo do hardware de leitura. Esse mesmo fator é que irá determinar o aumento no lançamento de títulos sob essa mídia.
Se isso será suficiente para extinguir o livro impresso, é difícil dizer, mas com o tempo, a tecnologia digital sempre acaba por se mostrar mais barata e, principalmente, a demandar menos recursos de matéria-prima básica e eliminar processos produtivos que, por mais ecológicos que forem, sempre apresentarão resíduos e sobras. Um ótimo exemplo é o mp3 frente ao Cd. Toda a mídia material foi eliminada, restando basicamente o player e os arquivos.
Talvez no futuro, um livro impresso seja algo raro e nostálgico, tal qual um carro a gasolina ou derivados de petróleo.
Pretende lançar algum romance em e-book?
Por mim, certamente que sim, mas isso é estratégia da editora. É ela quem decide se os títulos sairão sob essa mídia, embora penso que mais cedo ou tarde, isso acontecerá com todos os títulos. O e-book veio para ficar, é só uma questão de tempo.
Em relação a publicar de forma independente, no formato e-book, por hora não penso nisso, exatamente por meus vínculos editoriais.
Acredita em oficinas literárias?
Sou uma pessoa bastante pragmática e penso que sim, oficinas literárias podem mostrar algumas coisas para novos escritores e mesmo, para não tão novos. Mas não creio nos milagres que os defensores apregoam. Para mim, é similar ao desenvolvimento da criatividade. Podemos aprender várias técnicas que venham nos ajudar, mas ninguém tornará uma pessoa criativa, assim como não creio que oficinas criem escritores. E como em tudo, há um grande problema. A questão de se saber qual oficina dará aquilo que se espera? Eu ministrei cursos de Gestão Empresarial por duas décadas e convivi com muitos palestrantes, instrutores, etc. Assim como nas oficinas, estamos nos referindo e exercitando a arte de lecionar, e nesse caso não basta um ou mais nomes de destaque; a questão não é apenas se a as oficinas têm valor ou não, mas sim, como identificar aquela que realmente é de nível, daquela que é uma roubada?
Já pensou em ministrar alguma?
Sim, já cheguei a pensar, mas ainda não viabilizei. Talvez de andamento, ainda este ano, vamos ver.
Penso que ajuda, sim. A internet propiciou um meio rápido de pessoas levarem suas criações ao conhecimento de outras, em um número bastante extenso. Nesse sentido, se tornou fácil escrever e divulgar, o que ajuda não só em relação ao hábito da leitura, mas também, a despertar o hábito da escrita.
Contudo, aproveitando a questão, não vou entrar no mérito se o que fazem é ou não literatura. Pelo que já li a respeito, nem os especialistas na área se entendem ou concordam.
Porém, penso que muito mais importante do que tal debate, é vermos se tais textos têm qualidade, ou se apontam para uma evolução.
Infelizmente, salvo poucas exceções, o jovem que escreve tem um Português, se muito, sofrível! Também faço trabalhos de revisão, leitura crítica, etc, e a maioria dos originais que recebo apresenta uma escrita de péssima qualidade.
A questão é: quantos desses autores de internet usam suas próprias criações para evoluírem como escritores? Posso dizer que conheço autores consagrados na internet, com grande carisma, que chegaram a publicar por editoras, e que... não evoluem nada, em questão da Língua Portuguesa!
Acredito que essa falta de qualidade de escrita, esse desconhecimento da gramática básica, contribui muito para que tais textos não sejam considerados sequer uma “literatura popular”. Esta é uma questão delicada e que merecia um debate sério entre educadores, pois reflete diretamente a péssima qualidade do ensino básico.
Como um país pode ter grandes escritores, em número crescente, se o desconhecimento básico da língua é geral? E aqui, não me refiro a um Português erudito, mas sim, elegante, variável, rico. Será que entre um milhão de “mas”, ninguém lembra de usar um “todavia” ou um “contudo”? Toda a ação tem de ser narrada através do verbo “estar” mais um gerúndio – estava andando, estava correndo, estava olhando?
Veja ao ponto em que chagamos: estou falando de uma família de conjunção e de... conjugar verbos!
Um médico pode desconhecer medicina? Um engenheiro pode desconhecer seus cálculos. Como alguém pode querer ser escritor sem conhecer o básico da língua?
Escrever na internet aumentou suas vendas em livros impressos, ou o público é diferente?
Na realidade, não só escrever, mas principalmente divulgar minhas obras, as tornaram mais conhecidas e, sem dúvida, ajudou nas vendas. Escrever textos inéditos ou republicar material é uma parte integrante, de qualquer autor, na divulgação de seu trabalho. Muitos leitores acabam por tomar conhecimento primeiramente através desse material e depois, chegam a conhecer os livros em si.
O inverso também é válido, ou seja, aqueles que acompanham e aguardam com ansiedade um novo trabalho impresso, adoram ler novidades publicadas na internet.
De modo geral, é uma simbiose muito grande, e a maioria dos leitores acompanha os dois meios, digital e impresso.
Você está publicando uma série de fantasia em seu blog, fale um pouco sobre ela.
Na realidade, estou republicando minha minissérie, em dez partes, O Portador da Luz. Esse trabalho, de mistério e suspense, tem como tema fundamental, um dos grandes males da humanidade, o fanatismo e suas desmedidas consequências. A série foi publicada originalmente no Fontes da Ficção, ao longo de dez meses, e fez muito sucesso à época. Convido todos a lerem, pois traz um final inesperado, que poucos esperavam.
Assim que terminar a postagem de O Portador da Luz, trarei outro conto que poucos leitores conhecem, assim como alguns inéditos.
Você é da corrente que acha que o livro de papel vai acabar? Para dizer a verdade, não posso dizer que sou de alguma corrente, ou que torça por uma ou outra. Quem quer evoluir tem de se adaptar à tecnologia ou meios que surgem. A internet é um ótimo exemplo, assim como o mp3 e por aí, vai.
Penso que a tendência do papel é diminuir, se os livros digitais se popularizarem, que está diretamente ligado ao barateamento do custo do hardware de leitura. Esse mesmo fator é que irá determinar o aumento no lançamento de títulos sob essa mídia.
Se isso será suficiente para extinguir o livro impresso, é difícil dizer, mas com o tempo, a tecnologia digital sempre acaba por se mostrar mais barata e, principalmente, a demandar menos recursos de matéria-prima básica e eliminar processos produtivos que, por mais ecológicos que forem, sempre apresentarão resíduos e sobras. Um ótimo exemplo é o mp3 frente ao Cd. Toda a mídia material foi eliminada, restando basicamente o player e os arquivos.
Talvez no futuro, um livro impresso seja algo raro e nostálgico, tal qual um carro a gasolina ou derivados de petróleo.
Pretende lançar algum romance em e-book?
Por mim, certamente que sim, mas isso é estratégia da editora. É ela quem decide se os títulos sairão sob essa mídia, embora penso que mais cedo ou tarde, isso acontecerá com todos os títulos. O e-book veio para ficar, é só uma questão de tempo.
Em relação a publicar de forma independente, no formato e-book, por hora não penso nisso, exatamente por meus vínculos editoriais.
Acredita em oficinas literárias?
Sou uma pessoa bastante pragmática e penso que sim, oficinas literárias podem mostrar algumas coisas para novos escritores e mesmo, para não tão novos. Mas não creio nos milagres que os defensores apregoam. Para mim, é similar ao desenvolvimento da criatividade. Podemos aprender várias técnicas que venham nos ajudar, mas ninguém tornará uma pessoa criativa, assim como não creio que oficinas criem escritores. E como em tudo, há um grande problema. A questão de se saber qual oficina dará aquilo que se espera? Eu ministrei cursos de Gestão Empresarial por duas décadas e convivi com muitos palestrantes, instrutores, etc. Assim como nas oficinas, estamos nos referindo e exercitando a arte de lecionar, e nesse caso não basta um ou mais nomes de destaque; a questão não é apenas se a as oficinas têm valor ou não, mas sim, como identificar aquela que realmente é de nível, daquela que é uma roubada?
Já pensou em ministrar alguma?
Sim, já cheguei a pensar, mas ainda não viabilizei. Talvez de andamento, ainda este ano, vamos ver.
Na literatura em geral,você acompanha os novos escritores tanto de terror como em outros gêneros?
Dentro do Terror, até que sim, mas quando compro um livro, de autor desconhecido, não estou preocupado se ele é novo (iniciante) ou não; neste caso, o livro tem de mexer comigo de alguma forma, seja pela capa, que influencia muito, digam o que digam, algum texto de chamada ou trecho em orelhas ou quarta capa. Se o livro for bom, o autor me conquista e aí, normalmente, passo a prestar atenção a tudo que aquele autor publicar. Já em relação a outros gêneros é bem mais difícil, até por falta de tempo, ou seja, dedico o pouco tempo livre aos gêneros que aprecio.
Dentro do Terror, até que sim, mas quando compro um livro, de autor desconhecido, não estou preocupado se ele é novo (iniciante) ou não; neste caso, o livro tem de mexer comigo de alguma forma, seja pela capa, que influencia muito, digam o que digam, algum texto de chamada ou trecho em orelhas ou quarta capa. Se o livro for bom, o autor me conquista e aí, normalmente, passo a prestar atenção a tudo que aquele autor publicar. Já em relação a outros gêneros é bem mais difícil, até por falta de tempo, ou seja, dedico o pouco tempo livre aos gêneros que aprecio.
O que você gostaria que seus livros provocassem nas pessoas?Bom, eu escrevo para as pessoas se divertirem, embora gosto de, sempre que a trama permite, levantar certas questões que fazem o leitor pensar. Contudo, como me defino como um escritor de Terror, he he, quero mesmo que elas sintam muito medo! Talvez meu livro que mais reflita tal postura seja Relâmpagos de Sangue, uma obra que já fez muitos leitores perderem o sono ou terem, literalmente, pesadelos com a trama. Curioso como que, para mim, esta faceta ocorreu naturalmente, ou seja, eu não preciso pensar muito para conseguir tal clima; ele flui com naturalidade dentro de minhas obras. Mesmo meu último livro, Os Guardiões do Tempo que, diferente dos anteriores, é uma ficção com muita aventura e humor, voltada para todas as idades, não deixa de lado o mistério, suspense e, neste caso, uma pitada de terror, mas como alguns leitores me confidenciaram, que pitada! Há um trecho, onde menos se espera que é de arrepiar os cabelos.
Qual um conselho que você pode dar para os jovens escritores?Leiam muito, mas muito mesmo. No geral, todo bom escritor é um devorador de livros. Escrevam sempre, quanto mais, melhor. Fiquem atentos para o Português. Ninguém precisa ser erudito, mas qualquer um consegue ter uma escrita elegante. Não tenham medo, muito menos se envergonhem de comprar e consultar uma gramática e dicionário. Usem sinônimos, sejam ricos. Estes são os pequenos passos iniciais para que o jovem escritor apresente um trabalho profissional a um editor. No mais, tenham visão de seu público alvo, isso conta muito e, se possível, quando forem às editoras, tenham mais de uma obra para apresentar. Isso mostra continuidade. Por fim, esqueçam as TRILOGIAS (!!). Ninguém irá publicar uma trilogia de autor iniciante e desconhecido. Surpreenda os editores. Em vez de uma trilogia, leve três livros diferentes e independentes. Isso irá contar muito mais pontos.
![]() |
| Editora Novo Século, 272 páginas, R$ 29,90 |
| Editora Novo Século, 456 páginas, R$ 45,00 |
![]() |
| Editora Giz Editorial, 333 páginas, R$ 39,90 |
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quarta-feira, 3 de agosto de 2011
Antônio Xerxenesky faz um retorno de obsessões em novo livro
O autor lança novo livro pela Editora Rocco e traz à tona temas recorrentes em suas obras.
Por Ney Anderson
Foto da Autor e Capa - Tómas Rangel/Divulgação
O escritor Antônio Xerxenesky,26, lançou no mês passado o livro de contos A página assombrada por fantasmas, nele o autor retorna ao tema do livro anterior Areia nos dentes: um exercício metalinguístico, mas nesse caso, que foca no leitor como cúmplice para uma literatura, seja ela de qual gênero for, funcionar. São nove contos que passeiam por livros e autores conhecidos no mundo inteiro. Xerxenesky usa e abusa de suas influências tanto literárias, quanto de outros gêneros ficcionais, o cinema, por exemplo. No livro ainda há espaço para os games, que toda uma geração nascida da década de 1980 para cá, aprendeu a gostar. O livro é ágil e fácil de ler, o que não é um demérito, não é preciso reinventar a roda, basta apenas um bom punhado de histórias bem estruturadas e amarradas num enredo lógico e eficiente, o que torna a leitura prazerosa; Se engana quem pensa que o livro não traz algumas reflexões interessantes, como o mercado editoral brasileiro, que está publicando cada vez mais com uma qualidade, em muitos casos, baixa. O mais importante na literatura de Antônio Xerxenesky é o frescor que ela transmite, talvez por ainda não estar preocupado em fazer sucesso ou ganhar muito dinheiro(se é que é possível ganhar muito dinheiro com literatura no Brasil), e o foco seja dado apenas na escrita, no prazer de escrever.
Confira abaixo a entrevista que o autor concedeu exclusivamente para o Angústia Criadora.
Confira abaixo a entrevista que o autor concedeu exclusivamente para o Angústia Criadora.
Entrevista: Antônio Xerxenesky
A geração Z descrita no último conto do livro é uma alusão a escritores do sul e sudeste do país que são conhecidos por serem "fechados" a autores de outros locais?
Não, de modo algum. Há muita ironia naquele conto. Além de brincar com as "cenas literárias", também satiriza a visão dos críticos acerca dos novos autores e dessas "cenas".
No conto Sequestrando Cervantes você descreve um grupo de pessoas filiadas a um determinado partido, que queria mudar toda a estrutura do livro Dom Quixote para causar alguns efeitos em determinadas camadas e beneficiar outras. Já teve vontade de mudar a estrutura de algum romance clássico?
Não, não, nunca tive esse desejo. Mas esse tipo de coisa acontece, em um nível muito menor, naquelas edições "simplificadas" para adolescentes. É impossível fazer um jovem ler Dom Quixote nos dias de hoje. Nada de errado com isso, claro. Cada um lê o que quiser. E não há nada de errado em não se interessar por literatura, também.
O início do conto A breve história de Charles Mankuviac é bem irônico: "Charles Mankuviac. Brasileiro,apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro". Acha que não é possível a literatura brasileira conquistar outros países? Por quê?
Acho que a literatura brasileira tem tudo para conquistar outros países. Acho até bizarro que escritores do porte de um Bernardo Carvalho não sejam mais lidos lá fora. No entanto, é fato que os autores daqui não são tão lidos no estrangeiro. Falta de incentivo do governo, talvez? Os outros países costumam financiar traduções, costumam bancar viagens dos autores até outros lugares, e assim por diante. Vejo muito pouco isso no Brasil.
Percebemos no seu livro uma nostalgia com alguns filmes, livros e games. Acha que é possível escrever sobre o que não faz parte do seu mundo?
Acho que o escritor escreve sobre o que pode. Digamos que eu queira escrever sobre, sei lá, iatismo. Posso pesquisar a fundo o assunto. Mas se o tema do iatismo não significar nada para mim, será uma escrita fria, artificial.
Você produz sua literatura através de alguma imagem inicial, ou você vai arriscando e escrevendo todos os dias procurando novas possibilidades?
Eu tenho uma ideia, anoto em algum lugar, faço alguns diagramas e cedo ou tarde sento a bunda na cadeira e escrevo.
Para um jovem autor é importante buscar referências em outros jovens autores, ou isso pode "contaminar" uma literatura que ainda não amadureceu?
É essencial que um novo autor leia os novos autores, para saber em que cena está se inserindo. Nem que seja para romper e discordar dos seus outros comparsas.
Qual o nível que pretende alcançar com a sua literatura?
Gosto de pensar que escrevo livros com vários níveis de leitura, livros que ofereçam coisas diferentes a diferentes tipos de leitores, dos menos experientes aos mais eruditos. Por isso acho importante sempre escrever algo divertido, por mais bobo que isso possa parecer. Não há nada de errado em entreter o leitor.
O que você tem a dizer sobre escritores que escrevem em blogs e sites? Pode ser chamado de literatura?
Se há trabalho estético, não tem porque não ser chamado de literatura. Só muda o suporte. Blogs e sites são meios tão válidos quanto os livros.
É importante um jovem autor tentar publicar em antologias e jornais?
Se ele quer ser bastante lido, acho que sim. Publicar em antologias não faz ninguém crescer enquanto autor, só dá mais divulgação ao trabalho do escritor.
Quando se deu a vontade de começar a escrever?
A partir dos 16, quando escrevi alguns contos horríveis que, pelo bem da minha sanidade, foram apagados.
No seu blog você faz o seguinte comentário: “como os livros, ao invés de unir, separam as pessoas”. Explique melhor esse conceito.
Em meu livro A página assombrada por fantasmas, tentei fugir daquela visão que muitos livros sobre literatura trazem, de que "literatura é demais", é apaixonante, nos torna mais humanos etc. Não que não seja isso. Mas parece que muitos livros que trazem a própria literatura como tema parecem cartas de amor exageradas à literatura. Eu quis escrever um livro que levasse em conta o fato de que nem todas as pessoas no mundo são leitoras, nem todos os escritores são legais, livros podem estragar nossas vidas, nos isolar do mundo, e assim por diante.
Você edita a revista online Caderno de Não-Ficção, pretende lançar em formato impresso?
Pretender, claro que pretendo. Mas só seria possível com um financiamento externo. Não daria lucro. O que por um lado é bom, porque isso significa que posso editá-la sem fazer nenhuma concessão.
Quando está escrevendo um conto ou até mesmo um romance, consegue desligar-se do mundo real completamente?
Não, pois o telefone insiste em tocar, e cedo ou tarde eu preciso ir ao banheiro.
Ser um jovem escritor causa admiração nas pessoas?
Não. No máximo viro motivo de piadas entre ex-colegas de colégio.
O que mais lhe atrai quando está lendo um livro de um autor que você não conhecia?
Acho que certo "frescor" narrativo. Não "originalidade", pois isso não existe. Mas parecer autêntico, diferente. Um autor com uma voz própria.
Qual um livro que você leu e que ainda hoje se pega pensando nele?
“Não há nada de errado em não se interessar por literatura”
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O autor é uma jovem promessa da literatura brasileira |
Você escreveu um livro curioso, onde a metaliteratura está bastante presente, algo que você já fez no seu romance Areia nos dentes, ainda sente necessidade de tentar mostrar como funciona a ficção?
Olha, acho que com o A página assombrada por fantasmas, terminei de expressar tudo o que queria nessa área. Foi importante - e divertido - para mim usar jogos metaliterários nesses dois livros. Em certo sentido, o Areia nos Dentes complementa este novo livro de contos. Areia nos dentes é focado no escritor, A página assombrada por fantasmas no leitor. Mas agora acho que acabou. Espero.
Olha, acho que com o A página assombrada por fantasmas, terminei de expressar tudo o que queria nessa área. Foi importante - e divertido - para mim usar jogos metaliterários nesses dois livros. Em certo sentido, o Areia nos Dentes complementa este novo livro de contos. Areia nos dentes é focado no escritor, A página assombrada por fantasmas no leitor. Mas agora acho que acabou. Espero.
A geração Z descrita no último conto do livro é uma alusão a escritores do sul e sudeste do país que são conhecidos por serem "fechados" a autores de outros locais?
Não, de modo algum. Há muita ironia naquele conto. Além de brincar com as "cenas literárias", também satiriza a visão dos críticos acerca dos novos autores e dessas "cenas".
No conto Sequestrando Cervantes você descreve um grupo de pessoas filiadas a um determinado partido, que queria mudar toda a estrutura do livro Dom Quixote para causar alguns efeitos em determinadas camadas e beneficiar outras. Já teve vontade de mudar a estrutura de algum romance clássico?
Não, não, nunca tive esse desejo. Mas esse tipo de coisa acontece, em um nível muito menor, naquelas edições "simplificadas" para adolescentes. É impossível fazer um jovem ler Dom Quixote nos dias de hoje. Nada de errado com isso, claro. Cada um lê o que quiser. E não há nada de errado em não se interessar por literatura, também.
O início do conto A breve história de Charles Mankuviac é bem irônico: "Charles Mankuviac. Brasileiro,apesar do nome. Um escritor contemporâneo de grande repercussão mundial, apesar de brasileiro". Acha que não é possível a literatura brasileira conquistar outros países? Por quê?
Acho que a literatura brasileira tem tudo para conquistar outros países. Acho até bizarro que escritores do porte de um Bernardo Carvalho não sejam mais lidos lá fora. No entanto, é fato que os autores daqui não são tão lidos no estrangeiro. Falta de incentivo do governo, talvez? Os outros países costumam financiar traduções, costumam bancar viagens dos autores até outros lugares, e assim por diante. Vejo muito pouco isso no Brasil.
Percebemos no seu livro uma nostalgia com alguns filmes, livros e games. Acha que é possível escrever sobre o que não faz parte do seu mundo?
Acho que o escritor escreve sobre o que pode. Digamos que eu queira escrever sobre, sei lá, iatismo. Posso pesquisar a fundo o assunto. Mas se o tema do iatismo não significar nada para mim, será uma escrita fria, artificial.
Você produz sua literatura através de alguma imagem inicial, ou você vai arriscando e escrevendo todos os dias procurando novas possibilidades?
Eu tenho uma ideia, anoto em algum lugar, faço alguns diagramas e cedo ou tarde sento a bunda na cadeira e escrevo.
Para um jovem autor é importante buscar referências em outros jovens autores, ou isso pode "contaminar" uma literatura que ainda não amadureceu?
É essencial que um novo autor leia os novos autores, para saber em que cena está se inserindo. Nem que seja para romper e discordar dos seus outros comparsas.
Qual o nível que pretende alcançar com a sua literatura?
Gosto de pensar que escrevo livros com vários níveis de leitura, livros que ofereçam coisas diferentes a diferentes tipos de leitores, dos menos experientes aos mais eruditos. Por isso acho importante sempre escrever algo divertido, por mais bobo que isso possa parecer. Não há nada de errado em entreter o leitor.
O que você tem a dizer sobre escritores que escrevem em blogs e sites? Pode ser chamado de literatura?
Se há trabalho estético, não tem porque não ser chamado de literatura. Só muda o suporte. Blogs e sites são meios tão válidos quanto os livros.
É importante um jovem autor tentar publicar em antologias e jornais?
Se ele quer ser bastante lido, acho que sim. Publicar em antologias não faz ninguém crescer enquanto autor, só dá mais divulgação ao trabalho do escritor.
Quando se deu a vontade de começar a escrever?
A partir dos 16, quando escrevi alguns contos horríveis que, pelo bem da minha sanidade, foram apagados.
No seu blog você faz o seguinte comentário: “como os livros, ao invés de unir, separam as pessoas”. Explique melhor esse conceito.
Em meu livro A página assombrada por fantasmas, tentei fugir daquela visão que muitos livros sobre literatura trazem, de que "literatura é demais", é apaixonante, nos torna mais humanos etc. Não que não seja isso. Mas parece que muitos livros que trazem a própria literatura como tema parecem cartas de amor exageradas à literatura. Eu quis escrever um livro que levasse em conta o fato de que nem todas as pessoas no mundo são leitoras, nem todos os escritores são legais, livros podem estragar nossas vidas, nos isolar do mundo, e assim por diante.
Você edita a revista online Caderno de Não-Ficção, pretende lançar em formato impresso?
Pretender, claro que pretendo. Mas só seria possível com um financiamento externo. Não daria lucro. O que por um lado é bom, porque isso significa que posso editá-la sem fazer nenhuma concessão.
Quando está escrevendo um conto ou até mesmo um romance, consegue desligar-se do mundo real completamente?
Não, pois o telefone insiste em tocar, e cedo ou tarde eu preciso ir ao banheiro.
Ser um jovem escritor causa admiração nas pessoas?
Não. No máximo viro motivo de piadas entre ex-colegas de colégio.
O que mais lhe atrai quando está lendo um livro de um autor que você não conhecia?
Acho que certo "frescor" narrativo. Não "originalidade", pois isso não existe. Mas parecer autêntico, diferente. Um autor com uma voz própria.
Qual um livro que você leu e que ainda hoje se pega pensando nele?
Não tem um dia que passe que eu não lembre de alguma cena de O arco-íris da gravidade, do Thomas Pynchon. Aquele livro é maior que o mundo.
A Não Editora, na qual você é editor, acabou de lançar o livro de contos 24 letras por segundo, são histórias que remetem ao estilo de grandes diretores do cinema mundial, um conto seu está presente, fale um pouco sobre esse lançamento e os próximos projetos da editora.
Pois é. São contos inspirados em cineastas, geralmente imitando o estilo deles - seja visual, seja de roteiro - nos contos. O meu conto é baseado na obra do cineasta independente Hal Hartley. Quanto aos próximos projetos da Editora... bem, isso ainda é segredo.
O escritor Nelson de Oliveira lançou recentemente o livro Geração Zero Zero e causou uma certa polêmica no conceito de "geração". Qual sua posição sobre esse tema?
Apesar de discordar com vários autores que o Nelson escolheu, considero a iniciativa de tentar mapear nossa geração louvável. Mas, enquanto o Nelson tenta aproximar os autores pela linha do "bizarro", eu diria que não há absolutamente nada em comum entre os autores da nova geração. Vivemos no mais puro pluralismo literário.
A Revista Granta vai publicar no próximo ano jovens autores brasileiros com até 40 anos, você vai enviar texto?
Eu gostaria de enviar. Todavia, não tenho absolutamente nada inédito, tirando dezenas de "primeiros capítulos" de um romance que não sei se vou conseguir escrever.
Qual foi a maior crítica que recebeu sobre um texto seu?
O comentário mais positivo que já recebi, e isso vai parecer engraçado, foi de um conhecido meu, que disse que levou um trecho do Areia nos Dentes para o psiquiatra e leu para ele, dizendo algo na linha de: "É assim que eu me sinto". Esse comentário me marcou. Agora, "crítica literária" séria, não saberia dizer qual foi a melhor ou a pior.
A Não Editora, na qual você é editor, acabou de lançar o livro de contos 24 letras por segundo, são histórias que remetem ao estilo de grandes diretores do cinema mundial, um conto seu está presente, fale um pouco sobre esse lançamento e os próximos projetos da editora.
Pois é. São contos inspirados em cineastas, geralmente imitando o estilo deles - seja visual, seja de roteiro - nos contos. O meu conto é baseado na obra do cineasta independente Hal Hartley. Quanto aos próximos projetos da Editora... bem, isso ainda é segredo.
O escritor Nelson de Oliveira lançou recentemente o livro Geração Zero Zero e causou uma certa polêmica no conceito de "geração". Qual sua posição sobre esse tema?
Apesar de discordar com vários autores que o Nelson escolheu, considero a iniciativa de tentar mapear nossa geração louvável. Mas, enquanto o Nelson tenta aproximar os autores pela linha do "bizarro", eu diria que não há absolutamente nada em comum entre os autores da nova geração. Vivemos no mais puro pluralismo literário.
A Revista Granta vai publicar no próximo ano jovens autores brasileiros com até 40 anos, você vai enviar texto?
Eu gostaria de enviar. Todavia, não tenho absolutamente nada inédito, tirando dezenas de "primeiros capítulos" de um romance que não sei se vou conseguir escrever.
Qual foi a maior crítica que recebeu sobre um texto seu?
O comentário mais positivo que já recebi, e isso vai parecer engraçado, foi de um conhecido meu, que disse que levou um trecho do Areia nos Dentes para o psiquiatra e leu para ele, dizendo algo na linha de: "É assim que eu me sinto". Esse comentário me marcou. Agora, "crítica literária" séria, não saberia dizer qual foi a melhor ou a pior.
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| Editora Rocco,128 páginas, R$ 23,50 |
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sábado, 23 de julho de 2011
A literatura que alimenta a alma de Raimundo Carrero
O autor fez o primeiro lançamento oficial após o AVC que teve em outubro do ano passado
Por Ney Anderson
Fotos do autor e capa: Marcelo Menezes / Carolina Vaz
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| Carrero foi o vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura 2010 |
O escritor Raimundo Carrero, 63, lançou o livro Seria uma sombria noite secreta, (o primeiro lançado depois do AVC que teve em outubro do ano passado) e mostra mais uma vez o motivo de ser um dos autores mais premiados do Brasil. No romance é possível observar que os temas recorrentes em suas obras estão todos lá: violência psicológica, críticia social e os estupros,embora não explicitamente, e nem precisa.
A força narrativa do livro mostra um Carrero preocupado em mostrar que técnica literária, nada mais é do que trabalhar cenas, cenários, diálogos, e fazer com que tudo isso chegue ao leitor com uma simplicidade incrível.
Na última quinta-feira (21/07/11), Carrero fez uma sessão de autógrafos numa Livraria Jaqueira lotada de amigos e leitores, que queriam ver o mestre das oficinas literárias em total recuperação. Mesmo ainda fragilizado por causa da doença, mostrou-se forte e animado no começo da noite, mas teve que sair cedo por causa das dores que sentia na coluna.
Ficou a impressão que a literatura realmente é o combustível que alimenta a alma desse sertanejo de Salgueiro, sem ela dificilmente Carrero teria toda essa coragem e determinação. O sorriso já não era mais o mesmo do Raimundo Carrero que todos conheciam, contando uma piada e rindo, ele mesmo, do “causo” que estava contando. Mas a força de sua literatura sim, essa sim é a do escritor que nunca se cansou de levar para a literatura a voz das pessoas frágeis e sem rumo.
Escutamos o narrador conversando com a personagem Rachel: “Era você, Rachel, que devia contar. Mas com essa mania que você tem de contar coisas só de calcinha, nua, não é?, nua sentada no meio-fio,protegendo os peitos com os braços, às vezes com as coxas e os braços, feito quem se agasalha do frio, para evitar sua exposição, por orgulho e vaidade, eu conto. O que você faz é organizar. Está bem?”, e entendemos que Carrero quer mostrar definitivamente, que tudo pode ser feito na literatura, que as técnicas existem para serem usadas. O personagem Alvarenga não fala nada nesse livro, por não poder falar mesmo, mas pensa, ou “pensa que pensa”, e todas essas impressões da vida a sua volta vão sendo contadas por Rachel e pelo narrador, que não tenho dúvidas, é Raimundo Carrero. Alvarenga é um camelô que fica na porta da pensão onde Rachel recebe os clientes, e avisa com um toque de corneta quando a mulher está livre, por isso recebe balas e doces, que mais parecem peixes jogados para uma foca gorda .
Esses dois personagens apareceram no livro anterior, A minha alma é irmã de Deus (Editora Record – 2009), que venceu o prêmio São Paulo de Literatura e Machado de Assis do ano passado, e como tantos outros personagens tiveram um papel importante no livro do autor.
Pode-se dizer que é um amor estranho que nutre a vida de Alvarenga e Rachel. Uma prostituta, ou mulher que tem um “corpo social”, e um anão gordo, que nada fala e mal toca a corneta que aprendeu a utilizar na infância. Uma paixão alimentada por pena, tanto dela, quanto dele.
Seria uma sombria noite secreta é o melhor livro da obra de Raimundo Carrero, e faz um grande diálogo com outros livros do autor,como ele sempre fez, talvez por tentar escrever uma única obra, dividida em várias partes.
A força narrativa do livro mostra um Carrero preocupado em mostrar que técnica literária, nada mais é do que trabalhar cenas, cenários, diálogos, e fazer com que tudo isso chegue ao leitor com uma simplicidade incrível.
Na última quinta-feira (21/07/11), Carrero fez uma sessão de autógrafos numa Livraria Jaqueira lotada de amigos e leitores, que queriam ver o mestre das oficinas literárias em total recuperação. Mesmo ainda fragilizado por causa da doença, mostrou-se forte e animado no começo da noite, mas teve que sair cedo por causa das dores que sentia na coluna.
Ficou a impressão que a literatura realmente é o combustível que alimenta a alma desse sertanejo de Salgueiro, sem ela dificilmente Carrero teria toda essa coragem e determinação. O sorriso já não era mais o mesmo do Raimundo Carrero que todos conheciam, contando uma piada e rindo, ele mesmo, do “causo” que estava contando. Mas a força de sua literatura sim, essa sim é a do escritor que nunca se cansou de levar para a literatura a voz das pessoas frágeis e sem rumo.
Escutamos o narrador conversando com a personagem Rachel: “Era você, Rachel, que devia contar. Mas com essa mania que você tem de contar coisas só de calcinha, nua, não é?, nua sentada no meio-fio,protegendo os peitos com os braços, às vezes com as coxas e os braços, feito quem se agasalha do frio, para evitar sua exposição, por orgulho e vaidade, eu conto. O que você faz é organizar. Está bem?”, e entendemos que Carrero quer mostrar definitivamente, que tudo pode ser feito na literatura, que as técnicas existem para serem usadas. O personagem Alvarenga não fala nada nesse livro, por não poder falar mesmo, mas pensa, ou “pensa que pensa”, e todas essas impressões da vida a sua volta vão sendo contadas por Rachel e pelo narrador, que não tenho dúvidas, é Raimundo Carrero. Alvarenga é um camelô que fica na porta da pensão onde Rachel recebe os clientes, e avisa com um toque de corneta quando a mulher está livre, por isso recebe balas e doces, que mais parecem peixes jogados para uma foca gorda .
Esses dois personagens apareceram no livro anterior, A minha alma é irmã de Deus (Editora Record – 2009), que venceu o prêmio São Paulo de Literatura e Machado de Assis do ano passado, e como tantos outros personagens tiveram um papel importante no livro do autor.
Pode-se dizer que é um amor estranho que nutre a vida de Alvarenga e Rachel. Uma prostituta, ou mulher que tem um “corpo social”, e um anão gordo, que nada fala e mal toca a corneta que aprendeu a utilizar na infância. Uma paixão alimentada por pena, tanto dela, quanto dele.
Seria uma sombria noite secreta é o melhor livro da obra de Raimundo Carrero, e faz um grande diálogo com outros livros do autor,como ele sempre fez, talvez por tentar escrever uma única obra, dividida em várias partes.
domingo, 26 de junho de 2011
Um labirinto entre o real e o ficcional
Com uma narrativa labiríntica, autor cria um jogo de esconde-esconde da sociedade moderna
Por Ney Anderson
Fotos do autor e capa: Sven Paustian/ Mariana Newlands
Por Ney Anderson
Fotos do autor e capa: Sven Paustian/ Mariana Newlands
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Autor é uma jovem promessa da literatura alemã |
O alemão Daniel Kerlmann, 36, cria um jogo de complexas histórias onde tudo parece se prender no conceito de que qualquer coisa pode virar ficção. O livro Fama – um romance em nove histórias, nos traz personagens que cruzam entre o real e o ficcional. Seria um clichê criar um romance com histórias entrecruzadas, no entanto Kehlmann é um escritor hábil e nos passa uma ideia muito bem vinda e que todos os jovens escritores deveriam tomar para si: criar o seu próprio universo. Afinal de contas, tudo já se falou na literatura, o que muda são as visões particulares de cada autor. É dessa forma que um livro pode alcançar êxito ou não. Kehlmann nos mostra uma nova visão sobre um cotidiano barulhento, apressado e com todas as suas crises modernas.
Os personagens de Fama parecem estar preocupados com um destino incerto tal como acontece na vida real, (Por vezes pensamos que iremos encontrar esses personagens ao dobrar uma esquina ou tomando cervejas em algum bar). No capítulo Rosalie Viaja para morrer, a personagem central descobre uma grave doença e tenta convencer o autor que a criou a mudar o final da história e deixá-la viva e com saúde; esse mesmo autor aparece em vários outros capítulos em menor dose. Outras histórias interessantes permeiam a obra, como é o caso do ator Ralf Tammer no capítulo A saída, que para de receber ligações no celular, enquanto essas ligações estão indo parar em outro capítulo: vozes. Kehlmann cria um labirinto onde a menor falta de atenção faz qualquer leitor desatento se perder nesse jogo de esconde-esconde.
Alguns personagens do livro são escritores, que parecem criar o livro sem a ajuda de Daniel Kehlmann, tal é a força narrativa desse jovem autor alemão que está fazendo sucesso na Europa e ganhando prêmios importantes.
Fama é um livro muito bem construído, com uma linguagem simples sem ser simplória e banal. Leve na sua forma e complexo no seu conteúdo. Daniel Kehlmann amarra todas as histórias de uma forma ímpar, não se perde em momento algum (coisa normal entre autores menos hábeis) e mostra que na literatura tudo pode e nada pode, depende da força criativa de cada escritor.
Os personagens de Fama parecem estar preocupados com um destino incerto tal como acontece na vida real, (Por vezes pensamos que iremos encontrar esses personagens ao dobrar uma esquina ou tomando cervejas em algum bar). No capítulo Rosalie Viaja para morrer, a personagem central descobre uma grave doença e tenta convencer o autor que a criou a mudar o final da história e deixá-la viva e com saúde; esse mesmo autor aparece em vários outros capítulos em menor dose. Outras histórias interessantes permeiam a obra, como é o caso do ator Ralf Tammer no capítulo A saída, que para de receber ligações no celular, enquanto essas ligações estão indo parar em outro capítulo: vozes. Kehlmann cria um labirinto onde a menor falta de atenção faz qualquer leitor desatento se perder nesse jogo de esconde-esconde.
Alguns personagens do livro são escritores, que parecem criar o livro sem a ajuda de Daniel Kehlmann, tal é a força narrativa desse jovem autor alemão que está fazendo sucesso na Europa e ganhando prêmios importantes.
Fama é um livro muito bem construído, com uma linguagem simples sem ser simplória e banal. Leve na sua forma e complexo no seu conteúdo. Daniel Kehlmann amarra todas as histórias de uma forma ímpar, não se perde em momento algum (coisa normal entre autores menos hábeis) e mostra que na literatura tudo pode e nada pode, depende da força criativa de cada escritor.
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Editora Cia das Letras, 159 páginas, R$ 39,50, tradução: Sonali Bertuol |
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