Janela Secreta
Ney Anderson
O centro da cidade estava agitado. Pessoas passavam sem parar. Olhava aquela gente toda como se fossem glóbulos vermelhos. E na verdade eram. Fui andando pela rua, olhando as vitrines das lojas, vários anúncios de emprego. Vi a mulher entrando no prédio abandonado.
O meu pai havia enfrentado sérios problemas de saúde. Tinha lido num desses livros de auto-ajuda que as coisas aconteciam por que o destino queria que acontecessem, o engraçado era que esses autores quase sempre apareciam envolvidos em escândalos como se fossem personagens deles mesmos.
O velho começou a sorrir quando a médica entrou no quarto e disse que ele só iria ter mais algumas semanas de vida. Ele achava graça em tudo, até na própria morte. Era dado a essas brincadeiras. Nunca mais esquecerei seu sorriso.
Atravessei a rua para pegar o ônibus, tropecei, mas consegui chegar a tempo. Tudo parecia mais tranquilo.
Ney Anderson
O centro da cidade estava agitado. Pessoas passavam sem parar. Olhava aquela gente toda como se fossem glóbulos vermelhos. E na verdade eram. Fui andando pela rua, olhando as vitrines das lojas, vários anúncios de emprego. Vi a mulher entrando no prédio abandonado.
O meu pai havia enfrentado sérios problemas de saúde. Tinha lido num desses livros de auto-ajuda que as coisas aconteciam por que o destino queria que acontecessem, o engraçado era que esses autores quase sempre apareciam envolvidos em escândalos como se fossem personagens deles mesmos.
O velho começou a sorrir quando a médica entrou no quarto e disse que ele só iria ter mais algumas semanas de vida. Ele achava graça em tudo, até na própria morte. Era dado a essas brincadeiras. Nunca mais esquecerei seu sorriso.
Atravessei a rua para pegar o ônibus, tropecei, mas consegui chegar a tempo. Tudo parecia mais tranquilo.
Cheguei em casa sob forte chuva,na entrada do edifício muita água escorria por baixo dos carros. Acenei para o vizinho que me olhou com uma cara estranha. Mal comecei subir a escada já ouvi os gritos da síndica cobrando a taxa do condomínio.
Olhei pela janela e vi um táxi parado em frente ao edifício. Tudo normal com o carro, a não ser por um pequeno amassado na parte de trás. Com esse trânsito louco isso era natural.
Fui dormir cedo. Não estava interessado nas bobagens do Jornal Nacional.
Acordei com batidas na porta. É da polícia, falaram lá de fora. Levantei atordoado. Em pouco tempo já estava sendo levado para a viatura.
Trinta e cinco anos de cadeia. Foi esse o veredito do juiz.
Havia saído apenas uma vez com a prostituta e não tinha sido uma noite das melhores.
O taxista falou no depoimento que eu sai correndo do prédio e esbarrei no carro.Tudo mentira do safado.
Alguém estava pagando para ele fazer toda a encenação. Acho que pagaram muito mais para o juiz, a montagem era tão real, eu mesmo estava quase acreditando.
A câmera de vigilância me mostrava atravessando a rua, entrando no prédio abandonado, e minutos depois correndo para fora dele. Onde antes havia entrado àquela mulher. Tecnologias a serviço do mal. Bem que o Padre havia falado.
As músicas que ouvia quando era criança ficaram gravadas na minha memória. As melodias que às vezes me faziam chorar, canções que falavam quase sempre de amores acabados, paixões passageiras. Uma época boa. Minha mãe com um cigarro no canto da boca. Meu pai dormindo. Um cenário que irei lembrar sempre.
Terei que ficar com essas lembranças agora. Ou melhor, juntar com outras que não sei se são minhas ou fruto de algo que colocaram na minha cabeça.
Dentro da cela lembrei do corpo. Estava coberto por um lençol. Olhei pela janela. Sorri. Um sorriso sem culpa. Vagabundo. Loucos não têm culpa.
Olhei pela janela e vi um táxi parado em frente ao edifício. Tudo normal com o carro, a não ser por um pequeno amassado na parte de trás. Com esse trânsito louco isso era natural.
Fui dormir cedo. Não estava interessado nas bobagens do Jornal Nacional.
Acordei com batidas na porta. É da polícia, falaram lá de fora. Levantei atordoado. Em pouco tempo já estava sendo levado para a viatura.
Trinta e cinco anos de cadeia. Foi esse o veredito do juiz.
Havia saído apenas uma vez com a prostituta e não tinha sido uma noite das melhores.
O taxista falou no depoimento que eu sai correndo do prédio e esbarrei no carro.Tudo mentira do safado.
Alguém estava pagando para ele fazer toda a encenação. Acho que pagaram muito mais para o juiz, a montagem era tão real, eu mesmo estava quase acreditando.
A câmera de vigilância me mostrava atravessando a rua, entrando no prédio abandonado, e minutos depois correndo para fora dele. Onde antes havia entrado àquela mulher. Tecnologias a serviço do mal. Bem que o Padre havia falado.
As músicas que ouvia quando era criança ficaram gravadas na minha memória. As melodias que às vezes me faziam chorar, canções que falavam quase sempre de amores acabados, paixões passageiras. Uma época boa. Minha mãe com um cigarro no canto da boca. Meu pai dormindo. Um cenário que irei lembrar sempre.
Terei que ficar com essas lembranças agora. Ou melhor, juntar com outras que não sei se são minhas ou fruto de algo que colocaram na minha cabeça.
Dentro da cela lembrei do corpo. Estava coberto por um lençol. Olhei pela janela. Sorri. Um sorriso sem culpa. Vagabundo. Loucos não têm culpa.
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Sombras
Ney Anderson
Acordei atordoado. Não lembro o que estava fazendo na cama, com uma arma na mão. Na verdade, via flashes, eles disparavam na cabeça. Flashes malucos, não diziam nada, apenas que estava correndo de alguém, com medo de alguma coisa. A cabeça latejava, não conseguia pensar. O telefone tocou. Só escutei uma respiração ofegante.
Lembro que chamei a loira para uma dança, ela não quis. Fui afogar a decepção num copo de cerveja. Acho que não existe um lugar mais comum do que um copo de cerveja, mas era só o que tinha naquele lugar. Vocês me diriam, mas como pode uma pessoa levar um único fora e ir afogar as mágoas? Excelência, aquele não foi o único fora da minha vida e provavelmente não seria o último.
Semana passada vi um senhor muito parecido com o velho Leonel, não lembro muita coisa, foi logo pela manhã quando estava saindo para comer. Mas não quero falar do meu pai. Ele foi o responsável por toda a falta de esperança que sempre senti. Desculpem essas lembranças tolas, sei que não irão me ajudar em nada. Estou apenas desabafando, não quero que sintam pena de mim. Nunca fui amado ou admirado. Mas o fato de nunca ter sido amado não justifica a acusação de assassinato. Estava bêbado. A vista escureceu antes mesmo de me lembrar da aparência dela.
Quando a campanhia tocou, levantei um pouco confuso. Dois policiais me empurraram para entrar. Ela estava lá. Ao lado da cama. A pele já estava enrijecida, o rosto tinha perdido toda a felicidade de um dia antes.
Não sei por que ninguém me viu com uma mulher naquele dia, era tão linda, charmosa, não podia passar sem ser percebida.
Os senhores ficam me dizendo que eu estava sozinho no bar. As garçonetes nunca lembram nada que acontece ali. São treinadas para isso. Fui embora com ela e subimos as escadas nos beijando. Como ninguém viu isso? No meu prédio moram umas quarenta pessoas.
Acho que sempre estive nos lugares errados nas horas erradas.
Responda-me uma coisa, perguntou um dos policiais quando estava me levando para o presídio para cumprir trinta anos de reclusão. Por que você fez aquilo?
Olhei para ele, espantado. Essa era a única pergunta em que eu não tinha pensado. O local da cadeia era imitação barata de um convento. Alguns velhos estavam sentados na frente, dei um bom dia irônico para eles. Aquele lugar era diferente de tudo que tinha visto.
Entrei na cela. Um homem barbudo estava lá. Recebi toalha, três pedaços de papel e sabonete. Passaria o resto da minha vida ali.
Meus sonos nunca eram tranquilos. Os flashes que sempre apareciam na minha cabeça estavam ficando mais claros. Não tenho mais idade para arrependimentos e remorsos. Aquele nunca fui eu.
Os gritos agora vêm cada vez mais nítidos dentro da minha cabeça. Estou começando sentir o cheiro da pólvora.
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Sétimo Dia
Ney Anderson
Atravessou a Avenida Conde da Boa Vista à procura de divertimento. As esquinas guardavam segredos que poucos conheciam. Geraldo esperava encontrar algo novo, especial. Só via bêbados, putas, mendigos e ambulantes. Subiu as escadas do sexy shop, comprou camisinhas, adorava os diversos tipos e cores, comprou ainda algemas e uma pequena máscara. Entrou no bar mais próximo. Os olhos atentos. As mãos suadas. - Vai beber alguma coisa? - Uma cerveja, por favor.
O estabelecimento estava vazio, olhou para os lados. Ninguém conhecido, graças a Deus. A cerveja foi colocada na mesa. Gelada, estava muito gelada. Bebeu com cerimônia, não podia se dar ao luxo de tomar cervejas sempre. Levantou-se, foi ao banheiro, olhou-se no espelho, lavou o rosto, organizou os cabelos.
Ao retornar para a mesa, notou alguém de costas no balcão, um rapaz jovem. Ele virou-se. Geraldo olho-o atentamente e sorriu. Tomou mais alguns goles de cerveja. Percebeu o rapaz saindo do bar, foi atrás.
O carro estava com a porta do carona aberta. Entrou. As ruas não passavam de sombras. Acordou no meio da madrugada. Olhou ao lado, o jovem estava dormindo. Levantou-se. As camisinhas no chão, a máscara rasgada. Vestiu-se. Abriu a porta. Pegou um táxi. Voltou pelo mesmo caminho. Desceu na Avenida Guararapes.
O carro estava com a porta do carona aberta. Entrou. As ruas não passavam de sombras. Acordou no meio da madrugada. Olhou ao lado, o jovem estava dormindo. Levantou-se. As camisinhas no chão, a máscara rasgada. Vestiu-se. Abriu a porta. Pegou um táxi. Voltou pelo mesmo caminho. Desceu na Avenida Guararapes.
Andou. Devagar. Sem culpa. Andou.
A igreja já podia ser vista. Colocou as mãos nos bolsos. Retirou o Terço. Notou que as algemas ainda estavam lá. Abriu a pesada porta de madeira. Fez o sinal da cruz. Rezou, preparando-se para celebrar mais uma missa de sétimo dia.
__________A igreja já podia ser vista. Colocou as mãos nos bolsos. Retirou o Terço. Notou que as algemas ainda estavam lá. Abriu a pesada porta de madeira. Fez o sinal da cruz. Rezou, preparando-se para celebrar mais uma missa de sétimo dia.
* O conto Janela Secreta, foi publicado originalmente no Suplemento Literário O Pernambuco.
* O conto Sombras, foi publicado originalmente na antologia Contos de Oficina, organizada pelo escritor Raimundo Carrero.
* O conto Sétimo Dia, ficou em 6º lugar no concurso de contos do Instituto Maximiano Campos de Literatura 2010, e foi publicado em antologia com os dez contos selecionados.